14 de Julho: Festa Nacional francesa

14 de Julho: Festa Nacional francesa

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14 de julho: A festa Nacional Francesa foi instituído feriado nacional, em 6 de julho de 1880, quase um século mais tarde, sob a 3ª República.

14 de Julho: Festa Nacional francesa
Torre Eiffel. Fogos de 2009. Foto: Thierry Nava .

Como quase todas as pessoas imaginam essa data é festejada em comemoração a Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789, que deu fim a monarquia, e o regime absoluto dos reis da França. No entanto, essa data também esta relacionada com festa da Federação comemorada em 14 de julho de 1790, onde o rei Luís XVI (1774-1792) e a rainha Maria Antonieta (1774-1792) , juntamente com 83 deputados da Assembléia Nacional se reuniram com a população no Champs-des-Mars, em Paris, (um ano exato, depois da queda da Bastilha), para a reconciliação da paz da Nação, e aprovação do novo regime monárquico Constitucional.

Desde de 1788 que a França vinha enfrentando uma grave crise econômica e uma turbulência administrativa com a revolta dos políticos opositores contra as decisões do governo absolutista de Luís XVI, que cada vez mais impunha impostos arbitrários para a população pagar e assim cobrir os altos custos da manutenção da Igreja, dos Nobres e a própria Monarquia em perigo.

14 de julho de 1789: Tomada da Bastilha.

Ocasionando o aumento no custo dos produtos básicos, como pão e o leite, desempregos nas indústrias; de artesanato, tecidos, manufaturas, e o baixo poder aquisitivo. O rei e seus privilegiados foram considerados culpados e responsáveis pelo empobrecimento geral da classe trabalhadora de todo o país, aumentando o desespero, a tensão e agitação de todas as classes sociais.

14 de Julho: Festa Nacional francesa
Tomada da Bastilha, 14 de julho de 1789. Anônimo. Museu da Revolução Francesa.

A agitação chega no seu estado máximo no dia 11 de julho de 1789 quando o importante 1° ministro do rei, Jacques Necker (1732-1804) foi demitido, o que fez aumentar as especulações sobre a falência do Estado.

No dia seguinte, o jornalista e advogado Camille Desmoulins (1760-1794), gago mas grande orador revolucionário, anunciou nos jardins do Palais-Royal de forma vibrante e enfurecida, a demissão de Necker a população, e as prováveis consequências que esse retrocesso da Monarquia Absoluta poderia acarretar na vida de cada trabalhador.

Camille Demoulins, de J. S. Rouillard. P. de Versalhes.

M. Necker est renvoyé ; ce renvoi est le tocsin d’une Saint-Barthélémy des patriotes : ce soir, tous les bataillons suisses et allemands sortiront du Champ-de-Mars pour nous égorger. Il ne nous reste qu’une ressource, c’est de courir aux armes et de prendre des cocardes pour nous reconnaître.

Tradução livre:
M. Necker foi dispensado; essa demissão é a prova de um São Bartolomeu dos patriotas: hoje à noite todos os batalhões suíços e alemães sairão do Champ-de-Mars para nos abater. Nós só temos um recurso, correr para as armas e colocas distintivos nos reconhecer.

Mostrou duas pistolas ao povo e proclamou que todos fizessem o mesmo!

Esse discurso inflamado do dia 12 de julho foi o pavio para eclodir as primeiras manifestações populares em várias regiões de Paris, e início dos primeiros confrontos na praça Luís XV (atual Praça da Concórdia), entre exaltados revolucionários com o regimento de cavalaria Real-Alemã, que estavam em Paris, dando suporte ao exército do rei Luís XVI. Conflito com muitos feridos do lado dos manifestantes que lutaram desorganizadamente e sem comando.

No dia 13 de julho foi criada uma milicia de 48 mil homens voluntários da população e eleição dos comandantes para assegurar a ordem nas ruas e as manifestações espontâneas sem líderes.

No dia 14 de junho, pela manhã a população enfurecida invadiu o arsenal do hospital militar dos Inválidos, em busca de armas e pólvoras. Encontraram 32 mil fuzis e 20 canhões, mas a pólvora dos canhões, não foi encontrado.

14 de Julho: Festa Nacional francesa
Invasão dos revolucionários nos Inválidos, em busca de armas para lutarem contra o exercito de Luís XVI.. Estampa de Maillart, Philippe Joseph. Museu Carnavalet.

Na mesmo dia após, recuperar as armas, alguém espalhou a notícia (um fake news da época), que a pólvora necessária se encontrava na fortaleza e prisão da Bastilha, e que o rei Luís XVI se preparava para dispersar à força os deputados reunidos em Versalhes que preparavam um plano de reformas de um novo governo que daria mais justiça para população.

Ao mesmo tempo, as tropas do rei se encontravam reunidas nos arredores de Paris e estavam prontas para sufocar qualquer resistência contra os opositores do governo absoluto.

Com essas falsas notícias, a milícia de combatentes, por volta de 900 homens, avançaram em direção a Bastilha, (símbolo da arbitrariedade real), para pegar a pólvora dos canhões e mais armas para usarem no confronto com o rei, e aproveitar também para libertar segundo esses rumores, as centenas de presos políticos condenados injustamente pelo tribunal do rei.

O comandante e governador da prisão, Bernard de Launay (1740-1789), pego de surpresa teve que decidir rapidamente entre abrir os portões da fortaleza e entregar a pólvora e outras armas que pretendiam pegar ou defender lealmente a todo custo a prisão.

Ainda tentou numa discussão com os líderes da revolta uma negociação, prometendo não revidar com seus 114 homens, sendo 32 guardas suíços e 82 guardas “inválidos”, caso tentassem forçar a entrada.

Mas a uma parte dos revolucionários, sem paciência para o diálogo e o resultado das negociações, quebraram as correntes da ponte levadiça, e sem um plano definido de ataque tentarem invadir a prisão de qualquer forma.

14 de Julho: Festa Nacional francesa
Tomada da Bastilha, 14 de julho de 1789. Anônimo.

A guarnição abriu o fogo sobre a multidão, que não recuou. Durante a troca de fogo que durou 4 horas, De Launay se rende abrindo o portão principal. Resultado: Mais de 100 homens são mortos, e muitos feridos do lado dos revolucionários e somente seis do lado dos guardas.

Bernard de Launay foi levado para Praça de Grève (atual praça de l’Hôtel-de-Ville) para ser preso e julgado, mas antes que chegasse foi cercado pela população rebelada que linchou-o enfurecidamente até a morte. Sua cabeça foi cortada, colocada na ponta de uma lança e carregada como troféu pelas ruas da capital.

14 de Julho: A festa Nacional Francesa
“Tomada da Bastilha”, e a prisão Bernard de Launay. Pintura de Jean-Pierre Houël.

A pólvora tão desejada pelos revolucionários, finalmente não foi encontrada. Quanto aos presos liberados que pensavam encontrar centenas eram apenas sete homens, sendo 4 falsários, 2 condes, um chamado Hubert de Solages, preso a pedido de seu pai, que pagava pela sua permanência por atos , e um outro, Whyte de Malleville, preso por demência, a pedido da família, e Auguste Tavernier, possível comparsa no planejamento do assassinato de Luís XV (1715-1774), que estava preso desde 1759 (30 anos).

Luís XVI, bem alienado com tudo que se passava em Paris, depois que voltou da caçada na floresta de Marly, escreveu no seu diário, que aquele dia 14 de julho de 1789, que além da caça havia sido um dia normal, sem nada mais a acrescentar.

No dia 15 de julho, o rei Luis XVI ordenou que seu exército retornasse a Versalhes, e a Bastilha foi demolida.

Esses atos de violência, que o rei Luis XVI não ousou sancionar, marcaram o início da Revolução Francesa, e o levaram a guilhotina em 21 de janeiro de 1793, juntamente com sua esposa, a rainha Maria Antonieta em 16 de outubro de 1793..

Nos dias seguintes a queda da Bastilha, muitos nobres ligados ao governo, incluindo seus próprios irmãos, os futuros reis Luís XVIII (1814/1815-1824) e Carlos X (1824-1830) tomaram o caminho do exílio.

Um ano depois, em 14 de julho de 1790, foi escolhido o Champ-de-Mars (Campo de Marte) como o local para celebração da Festada da Federação.

14 de julho de 1790: Festa da Federação.

Dia do 1° feriado Nacional Francês que marcou exatamente o início da Revolução Francesa e a tomada da Bastilha, selando assim a reconciliação do rei Luís XVI, dos deputados e do povo.

14 de Julho: Festa Nacional francesa
Festa da Federação, 14 de julho de 1790. Museu da Revolução Francesa. Anônimo.

O clima do dia foi de reconciliação e esperança para o futuro. Nem mesmo o mau tempo conseguiu tirar o entusiasmo do mais de 1000 mil espectadores que vieram celebrar esta data de União Nacional. Uma reconciliação de curta duração!

Naquele ano, muitas coisas já haviam sido modificadas no país: a alta nobreza perdeu seus privilégios, a igreja teve seus bens confiscados, e importantes leis em benefícios do cidadão foram aprovadas, como a liberdade de pensamento e expressão, liberdade de se rebelar contra os abusos do governo, igualdade de direitos… E uma série de outras resoluções atribuídos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, promulgada em 16 de agosto de 1789.

Luís XVI e família abandonaram as mordomias e o alto custo de se morar no Castelo de Versalhes para viveram modestamente no Palácio das Tulherias, sem festas e exageros, pois eram vigiados constantemente pela guarda nacional.

A Festa nacional foi proposta à Assembléia Constituinte, em junho de 1790, pelo bispo de Autun, Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (1754-1838), futuro ministro de Napoleão Bonaparte, Luís XVIII e Filipe de Orleans.

14 de Julho: Festa Nacional francesa
Festa da Federação, Campo de Martes, 14 de julho de 1790, de C. Thévenin. M. Carnavalet

A organização foi apoiada por Gilbert du Motier, Marquês de La Fayette, (1757-1836) comandante da Guarda Nacional desde o dia da sua criação em 14 de julho de 1789.

Após um série de discursos de políticos, o rei Luís XVI, sem crer na suas próprias palavras prestou um juramento político, esperando dias melhores:

14 de Julho: Festa Nacional francesa
Festa da Federação, Campo de Martes, 14 de julho de 1790, de C. Thévenin. M. Carnavalet.

Moi, roi des Français, je jure d’employer le pouvoir qui m’est délégué par la loi constitutionnelle de l’État, à maintenir la Constitution décrétée par l’Assemblée nationale et acceptée par moi et à faire exécuter les lois. »

Tradução:
Eu, rei dos franceses, juro usar o poder delegado a mim pela lei constitucional do Estado, para manter a Constituição decretada pela Assembléia Nacional e aceita por mim e para fazer cumprir as leis. “

Depois de um ano de violência nas ruas, esta festa marcou o fim de um período de instabilidade e o nascimento de um Estado novo, com a população unida sob uma monarquia constitucional. Todos os presentes acreditavam nisso.

Mas que durou pouco tempo pois o pior estava por vir, com a período conhecido como “Terror“, com os massacres, guilhotina e violências, arbitrárias contra todos aqueles que eram contra a República e o novo regime no poder.

14 de julho: Feriado Nacional mas para qual evento?

A data 14 de julho escolhido como Feriado Nacional foi instituído em 6 de julho de 1880, pela lei Raspail, se comemora dois acontecimento históricos para França: Para muitos, por causa da Tomada da Bastilha, no dia 14 de julho de 1789, símbolo do fim da monarquia absoluta, e para outros, o dia da Festa Federação de 14 de julho de 1790, símbolo da União da Nação, com os mesmo ideais.

A lei não menciona qual evento é comemorado, simplesmente deixa anotado como um único artigo, e com o seguinte texto: “A República adota 14 de julho como feriado nacional anual”. E ponto final.

Mas para o governo de 1880, época de manifestações sociais por todo o país, apesar de o texto não ter ficado claro, é mais provável que o texto foi aprovado para celebrar a Festa das Federações, pois após a queda de Napoleão III em 1870, e a perca da Alsácia e Lorena em 1871, para os prussianos, o país passava por um momento delicado inferioridade emocional e de muita tristeza pela derrota na guerra e suas consequências. O país precisava uma chacoalhada na moral, nos sentimentos patrióticos, e nos brios nacionalistas da população.

Esse dia, se fosse para comemorar a Queda da Bastilha, esses sentimentos não seriam os mesmos, pois não tinha sentido aprovar um feriado nacional, para celebrar um movimento em que o população lutou violentamente contra o governo. Ao contrário, o que eles precisavam eram de uma aliança, do povo e governo, e isso só ocorreu um ano depois.

Mas o que ficou efetivamente registrado na memória coletiva da Nação foi a Queda da Bastilha, e quase ninguém sabe, sobre esse história da Festa da Federações.

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Livros:

Sugestões: 10 Livros sobre Paris e seus Segredos.

E-book:

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2 Comentários


  1. Adorei ler sobre isso! Sempre que estou na França 🇫🇷 Nestas datas participo sempre das comemorações do 14 de Julho com minha família ! Esclarecedora , Vive La France

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