Análise iconográfica de uma obra do Louvre “La Crucifixion” de Mantegna

Análise iconográfica de uma obra do Louvre “La Crucifixion” de Mantegna

Tempo de leitura: 15 minutos

Análise iconográfica de uma obra do Louvre “La Crucifixion” de Mantegna.

O que é uma análise iconográfica?

A iconográfica é uma ferramenta de grande importância para os profissionais da área de conservação, restauração, história da Arte e museologia. Ela reflete os sentimentos, e a personalidade do artista como forma de comunicação por excelência.

Para compreendermos a mensagem e o significado de uma obra de arte precisamos mais do que nossos conhecimentos quotidianos, culturais e simplistas. A interpretação de uma obra depende de uma análise iconográfica aprofundada em conhecimentos pré-adquiridos em leituras, estudo dos movimentos artísticos, sociais, culturais e políticos, da época em que a obra foi realizada pelo artista referido.

O estudo de uma obra de arte, pode ser também uma importante fonte de estudos para compreendermos acontecimentos passados ou presentes. Mas fazer uma análise iconográfica baseada somente em informações literárias, nem sempre nos assegura uma interpretação correta do tema que estamos a investigar.

Desde a antiguidade, em que o homem usava signos e símbolos para comunicar uma mensagem específica, da mais simples até a mais complexa, a observação iconográfica está sujeita a uma interpretação e identificação escrupulosa das imagens expostas na obra que estamos a examinar, proporcionando assim um correto estabelecimento de datação, e muitas vezes a autenticidade da obra em questão.

Um método para análise de uma obra de pintura.

Uma atenciosa descrição e interpretação da obra artística, nos permite conhecer algo mais do que aquilo que ela nos apresenta de imediato.

Devemos começar fazendo a leitura da imagem com um olhar bem ingênuo, sem pré-julgamentos e conceitos sem fundamentos. Somente depois é que devemos partir para tentar reconhecer e descrever símbolos, expressões, mensagens e atitudes que podem nos revelar as intenções do artista.

Lembrando que cada pessoa tem uma interpretação e uma visão única de um determinado assunto e tema, segundo sua formação cultural, educacional e experiências pessoais.

Esse método não é regra, e sim somente uma forma para organizar na sua mente, uma realidade histórica conhecida, para depois partir para uma análise formal, técnica e pessoal.

Quando estivermos analisando uma obra, e temos dúvidas em relação à sua iconografia, devemos então verificar se mais algum artista, de outra época, teria tratado o mesmo assunto ou tema, e se a obra na sua composição final, teve influências dogmáticas (estilo, expressão..) ou políticas, diferentes do artista anterior.

Parâmetros básicos:

São as informações necessárias para identificação uma obra:

  • Nome do artista.
  • Título, e o ano da obra.
  • Tipo de Suporte: madeira, tela, tecido, pedra, parede, etc…
  • Dimensões da obra: altura e largura.
  • Gênero da pintura: retrato, natureza morta, paisagem, alegoria, cena religiosa, histórica, cena cotidiana, familiar, popular…
  • Local da cena.
  • Contexto histórico, literário e artístico da obra.
  • Existe uma assinatura.
  • Local de conservação.
  • Forma de aquisição.
  • Fontes bibliográficas.

Análise formal:

Depois, com base nessas informações podemos partir para análise formal:

  • A técnica utilizada: desenho no lápis (de grafite, de carvão ou sanguínea), a base de água (aquarela, guache, pastel, têmpera, afresco), Pintura a óleo, gravura, litografia, água-forte.
  • A composição: distinguir os diferentes planos do quadro e descrever o que está representado. Procurar a geometria secreta como, as linhas diretrizes (horizontais, verticais, diagonais), que organizam e ligam os elementos do quadro.
  • Organização das cores: primárias, complementares, contrastes, e das tonalidades (tons quentes: vermelho, laranja, amarelo e os tons frios: azul, verde e violeta), harmonia do quadro.
  • “La Touche”: que determina o tipo de pincelada, se ela é fina, média, grossa, plana, forte, aguada, e a direção que ela tomou, para esquerda, direita, diagonal, horizontal, vertical…
  • “La Facture”: em francês, é caraterizado pela espessura da camada de tinta e os efeitos sobre o suporte escolhido…
  • Entender “La Touche” + “La Facture”, praticamente determinara o autor da obra, é como uma impressão digital, única.
  • Representação do espaço, e da perspectiva.
  • Descobrir a fonte da luz (vindo da esquerda, direita, do centro, do chão, do céu, de uma vela…), importante para deixar o personagem tema ou os objetos em evidência.
  • Formas e linhas: contornos, curvas, volumes, modelos…

Conclusão:

Entendimento da significação histórica, simbólica, artística e outras particularidades:

  • A visão do artista e sua realidade é objetiva ou subjetiva ?
  • O tema é uma manifestação histórica, social, cultural, religiosa, mitológica, popular, denunciativa…?
  • O que ele está tentando nos mostrar é de forma simbólica ou realista?
  • Qual era o contexto da época em que o autor trabalhou a obra, momentos de guerras, perseguições, êxodos, paz, mudanças de costumes…?
  • Qual era a importância da obra na vida do artista, comercial, pessoal, original, política, social, pesquisa de novas técnicas…?

O que é um Retábulo e uma Predela?

Análise iconográfica de uma obra do Louvre "La Crucifixion"
Retábulo e Predela, da Basílica de São Zenão, em Verona, Itália.

O Retábulo é um elemento estrutural vertical ornado de representações históricas ou figurada, esculpida ou pintada, e que se encontra atrás da mesa do altar principal, seja de uma capela, igreja, basílica ou catedral.  Podendo ele ser de madeira, mármore ou de outro material, e geralmente construído por um artista que acumula várias competências, pintor, escultor, arquiteto… Frequentemente o Retábulo é composto por painéis, no caso de dois painéis, é chamado de Díptico, três painéis, Tríptico, e quatro ou mais painéis, é chamado de Políptico.

A Predela: se encontra abaixo do Retábulo, podendo ser composto por uma prancha única horizontal ou separado por duas ou mais pranchas, esculpidas ou pintadas, servindo como suporte aos painéis superiores do retábulo. Tem com função iconográfica, de complementar a cena principal do Retábulo, através de pequenas narrativas, históricas, e religiosas.

Objeto de análise: “La Crucifixion ou “Le Calvaire”:

Essa obra é a parte central, (entre as três partes), da Predela de um Retábulo políptico, que se encontrava no altar principal da Basílica de São Zenão, (“Basilica di San Zeno”), em Verona, na Itália.

Análise iconográfica de uma obra do Louvre "La Crucifixion"

Inteiramente construído, de 1456/1457 a 1459, e pintado por Andrea Mantegna, por encomenda do abade beneditino, Gregório Correr. Desde 1798, se encontra em exposição no Museu do Louvre.

As duas outras planchas da predela do Retábulo da Basílica de São Zenão: “Agonia nos jardins da oliveira, em Getsêmani”, e “A Ressurreição de Cristo”. Desde 1809, se encontram em exposição no Museu de Belas-Artes de Tours, na França.

Informações sobre a obra:

Nome do artista: Andrea Mantegna, (1431 – 1506).

Título: “La Crucifixion” ou “Le Calvaire”.

Ano de realização: 1456/1457 – 1459.

Tipo de Suporte: Têmpera sobre madeira. (Ver explicação na Análise Formal, mais abaixo).

Dimensões da obra: Altura: 76 cm. e Largura: 96 cm.

Gênero da pintura: Cena religiosa, histórica.

Análise iconográfica de uma obra do Louvre-La Crucifixion de Mantegna
Predela central do Retábulo da Basilica de São Zenão, Verona, Itália.

Contexto histórico, literário e artístico da obra:

Segundo o evangelho de João (19:1-37): Jesus foi crucificado na colina de Gólgota (= monte das caveiras), entre dois malfeitores, Dimas e Gestas.

Acima de Jesus se encontra o motivo da sua condenação: INRI: Jesus Nazareno, O Rei dos Judeus.

Ao pé da cruz, o crânio de Adão.

À esquerda, ossos e crânios, evocando a descoberta da tumba de Adão.

De pé, a esquerda, junto ao crucificado, Dimas, (o bom ladrão), se encontra João, um dos doze discípulos de Jesus. Posicionado em frente as mulheres Santas: Maria Madalena, Maria Salomé , Maria de Cleofas e Joana, que consolam, Maria, mãe de Jesus, desolada.

À direita, encontramos três soldados romanos disputando no jogo de dados, em cima de um escudo romano, a túnica de Cristo. Um outro soldado discute o quanto poderia valer a túnica com dois mercadores. Ainda vemos dois soldados montados em seus cavalos, um observa Jesus na Cruz, e outro observa a cena dos mercadores de tecido.

O soldado no centro, abaixo da cruz, é Longino ou “Longinus”, que mais tarde se converterá e será conhecido por São Longuinho, (sim, aquele mesmo dos três pulinhos). E como na cena, Jesus não está perfurado, nos faz pensar que ainda está Vivo.

Ainda é dia, um sol ilumina Dimas e Jesus. A cidade ao fundo está bem movimentada de pessoas caminhando.

Mantegna, claramente optou por um momento preciso da agonia de Cristo, dando a cena uma tensão dramática.

“São Sebastião” (1480), de Andrea Mantegna, Louvre

Existe uma assinatura? Não, mas podemos identificar o pintor Andrea Mantegna, após analisar algumas de suas obras, (exemplo: “São Sebastião”, no Louvre). Um estilo de pintar marcado pela predominância da perspectiva linear, de uma grande expressividade nas figuras representadas, e pelo aspecto escultural na representação dos personagens em destaques.

Tinha uma fascínio pela antiguidade, e esculturas gregos-romanas.

Escola da pintura: Andrea Mantegna fazia parte da escola veneziana na qual privilegiava mais as cores e a perspectiva. Gostava de trazer o expectador para dentro de suas obras. Ao contrário da escola florentina que privilegiava mais o desenho e elegância na composição.

Local de conservação e exposição: Desde 1798, em exposição no Museu do Louvre, na ala Denon, 1°andar, Grande Galeria, sala: 710, 712, 716.

Forma de aquisição: Saqueada por Napoleão Bonaparte, em sua campanha pela Itália em 1797. O retábulo original foi devolvido em 1815, menos os três painéis da predela, “La Crucifixion’, a principal ficou no Museu do Louvre, e outros dois, “Agonia nos jardins da oliveira, em Getsêmani, e “A Ressurreição de Cristo” ficaram em Tours, no Museu de Belas Artes. Atualmente, na Basílica de São Zenão, no altar principal, se encontra o Retábulo original, com uma Predela constituída por cópias.

Fontes bibliográficas: – Alberta DE NICOLO SALMAZO, ‘’Mantegna, Citadelles et Mazenod ‘’, Paris, 2004. – Jane MARTINEAU, ‘’Andrea Mantegna ‘’, catálogo da exposição, em Londres, na Real Academia de Arte, em Nova Iorque, Museu Metropolitano de Arte, em 1992, em Paris, Museu do Louvre, em 2008 – Niny CARAVAGLIA, ‘’Tout l’œuvre peint de Mantegna’’, Flammarion, Paris, 1978. – Patrick RYNCK, ‘’Retablo de San Zeno’’, Andrea Mantegna, Grupo Editorial Ramdon House Mondadori.

Análise Formal:

Técnica utilizada:

Têmpera, (do latim Temperare). Pigmentos sólidos coloridos que após serem moídos são misturados com água, gemas de ovos ou proteína de ovo (caseína), para dar consistência e opacidade na pintura. Muito utilizado na Renascença Italiana do século XIV e fim do século XV, e preferida de Leonardo da Vinci.

Análise da Composição:

Análise iconográfica de uma obra do Louvre-La Crucifixion de Mantegna
Perspetiva linear “La Crucifixion”, de Andrea Mantegna.

Mantegna ao criar sua composição, optou a perspectiva linear, como forma de dramatizar a cena.  Um ponto de fuga na Cruz, com vista de cima para baixo (em italiano, “da sotto em sù”), e uma linha do horizonte abaixo dos pés de Jesus, obrigando o expectador a entrar no quadro e refletir sobre a crucificação e as mensagens teológicas da Bíblia sagrada.

Existe propositalmente uma organização geométrica e simbólica do espaço localizado no centro da composição dividindo a cruz de Cristo, em dois lados, o do BEM e do MAL.

Análise o lado do “BEM”:

O lado direito de Jesus, (ou esquerda para quem olha a obra).

O lado do “BEM”, na obra “La Crucifixion”, de Mantegna.

Dimas, o bom ladrão, se contorcendo de dores na cruz, que ao se arrepender por seus crimes, foi perdoado por Jesus.

São João Evangelista, com as mãos cruzadas, orando e chorando pelo sacrifício de  Jesus. Foi o único discípulo que assistiu a crucificação.

Virgem Maria e as mulheres Santas iluminadas por uma áurea divina.

A cidade de Jerusalém, (representando o Paraíso Celeste).

As pessoas caminhando ao fundo, acima das mulheres Santas.

Longinosegurando a lança, que segundo o evangelista, São João foi provavelmente o único soldado romano naquele dia a reconhecer Jesus, como o “Verdadeiro filho de Deus”, após ser curado pelo sangue de Cristo que respingou em um dos seus olhos, voltando a enxergar. Se arrependeu do seu ato, se convertendo na fé Cristã. E bem mais tarde, no ano de 999 foi beatificado pelo papa Silvestre II. Nosso famoso santo dos objetos perdidos, São Longuinho.

A luz do dia, representando dos elementos naturais da vida.

Análise o lado do “MAL”:

O lado esquerdo de Jesus, (ou direita para quem olha a obra).

O lado do “MAL”, na obra “La Crucifixion”, de Mantegna.

Gestas, o ladrão ruim, que duvidou da santidade de Jesus, perguntando, ironicamente, por que ele não se salvava, e não saía dali, já que se dizia ser Deus.

Os soldados romanos e mercadores, simbolizando os Sete Pecados Capitais: Egoísmo, Avareza, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça, Soberba.

A vegetação morta, simbolizando a tristeza e as decepções do homem,

A colina na sombra, representado as dúvidas, desconfianças e as incertezas do homem.

Organização das cores:

Optou por uma predominância de cores quentes para terra e um azul claro para o céu. Destacando assim Jesus no centro da cena.

Jogo de contrastes no grupo das mulheres Santas, onde a Virgem Maria, vestida de preto está destacada com relação a mulher de branco.

As cores primárias podem ser encontradas nos soldados romanos que disputam a túnica de Jesus, com o amarelo e o azul.

A luz divina é da direita para esquerda acentuando mais uma vez a divisão, do “BEM” e do “MAL”.

Podemos notar que o lado esquerdo da composição (lado do “BEM’) é mais iluminada que a direita, (lado do “MAL”) que esta na sombra. Mais uma bela jogada de contrastes.

“La Touche” : Pincelada fina, aguada e plana.

“La Facture” : Camadas de tintas lisas sobre madeira.

Conclusão final sobre a obra e o autor:

Graças a Giorgio Vasari, que escreveu em 1550, várias bibliografias dos artistas do século XIV e final do XV (Renascentismo) é certo que Andrea Mantegna leu o tratado do arquiteto e humanista italiano, Leon Battista Alberti, que falava de pintura e técnicas de pinturas, no livro: “De pictura” (1435).

Análise iconográfica de uma obra do Louvre "La Crucifixion"
Auto-retrato Mantegna (1465/1466).

Mantegna aprendeu com ele, a melhor maneira de representar uma cena utilizando perfeitamente a perspectiva linear como um estilo pessoal para representar um momento importante da história da bíblia, com uma espantosa autoridade estética, dramática e comovente.

Seus personagens são animados de expressões comoventes inspirados nos mármores antigos, que faz com que o expectador reflita sobre mensagens simbólicas e históricas, deixadas para o nosso conhecimento e pensamentos.

Mantegna, aos 26 ou 27 anos, com esse trabalho notável foi o grande percussor do Renascentismo italiano, e um especialista da Antiguidade Clássica, onde influenciou vários artistas do seu tempo.

Devido sua notoriedade foi chamado para trabalhar como pintor oficial na corte do riquíssimo, Ludovico Gonzague, o marques de Mântua, na Itália.

Clique aqui para ler meu outro artigo que também faz uma análise sobre “As Bodas de Caná”, de Veronese.

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