As três principais Óperas de Paris

As três principais Óperas de Paris

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As três principais Óperas de Paris construídas no século 19, período particularmente conflituoso, de guerras, crises políticas, revoluções, mudanças de regimes e governantes, essas casas de espetáculos conseguiram assim mesmo, cada uma em seu tempo e sua cena lírica, tornaram-se o centro cultural e vital da aristocracia parisiense e de atenção de vários países da Europa.

As três principais Óperas de Paris
Baile de máscara na Ópera Le Pelletier. Gravura 1840.

Esse fenômeno de escala internacional que muitos pensam ter surgido com a Ópera Garnier, (partir de 1875), na realidade teve sua origem em duas importantes óperas, poucas conhecidas e que não existem mais, chamadas: Ópera de la rue de Richelieu (em 1793) e Ópera Le Pelletier (1821).

Ópera de Paris:

Em 1661, foi fundada pelo rei Luís XIV (1643-1715), a Academia Real de Dança, (Académie Royal de Danse) que tinha como objetivo o ensino e a prática da dança nacional. Em 1669, foi integrada a essa intuição, a Academia da Ópera (“Académie de l’Opéra”), formando assim a companhia nacional de óperas e balés da França, chamada: Opéra de Paris.

As óperas, durante o século XVII e XVIII ficaram concentradas em Paris, em volta de dez salas, muitas vezes pequenas, inconfortáveis e maus construídas.

teatro do “Palais-Royal” (ou Sala do “Palais-Royal”) incendiada, em 6 de abril de 1763.

Ao longo do tempo, por razões particulares de cada uma, foram se fechando ou acabaram sendo destruídas por incêndios, levando a necessidade de se construir novas salas na cidade, mais modernas, maiores e para um público cada vez mais exigente em prazeres e divertimentos.

Abaixo encontra-se em ordem cronológica, um resumo histórico das três principais óperas, e assim entendermos um pouco melhor a relação que existem entre elas.

Ópera de la rue Richelieu.

Construído entre 1792 e 1793, pelo arquiteto neoclássico, Victor Louis (1731-1800), em plena época revolucionária a pedido de Marguerite Brunet (1730-1820) mais conhecida no meio artístico como Mademoiselle Montansier, amiga de Maria Antonieta e Luís XVI.

Mademoiselle Montansier ou Marguerite Brunet (1730-1820).

Mulher empresária dinâmica nomeada diretora de espetáculos da Corte de Versalhes e de vários outros teatros como: Fontainebleau, Saint-Cloud, Marly, Compiègne, Rouen, Caen, Orléans, Nantes e Le Havre.

Inaugurado oficialmente em 15 de agosto de 1793, como Teatro Nacional de Paris, era chamado popularmente pelo nome da sua proprietária, “Salle Montansier ou “Opéra Montansier”.

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Antiga “Salle Montansier” chamada mais tarde por “Ópera de la rue de Richelieu”.

Teatro que ela infelizmente teve pouco tempo de usufruí-lo, pois alguns meses depois, em 15 de novembro de 1793, depois de ver vários de seus amigos serem guilhotinados, sua propriedade foi confiscada pelo Comitê Revolucionário, e ela enviada a prisão acusada de querer incendiar a Biblioteca Nacional de Paris e de ter recebido dinheiro da rainha Maria Antonieta e dos ingleses, durante a construção da obra.

Em setembro de 1794, Mademoiselle Montansier absolvida de todas as acusações recebeu como indenização uma alta compensação financeira e livre para abrir outras salas de espetáculos, mas o seu teatro da rua Richelieu, tornou-se definitivamente propriedade do Estado.

Mademoiselle Montansier morreu em 1820, ao 90 anos como proprietária de um outro teatro que havia comprado em 1807, e que ainda existe, chamada em francês, Théatre des Variétés (Teatro de Variedades).

A Ópera Montansier foi reaberta em 07 de agosto de 1794, com dois outros nomes: Teatro das Artes e Academia Nacional de Música, mas ficou popularmente conhecida como Ópera de la rue de Richelieu.

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Ópera Montansier ou “Théâtre des Arts”. Foto: Arquivos Nacionais.

Durante todo o período imperial de Napoleão Bonaparte I (1804-1814/1815) e a restauração com o rei Luís XVIII (1814/1815-1824), a Ópera serviu como a principal sala de espetáculos de Paris, frequentado principalmente por grande alta sociedade burguesa da época e membros do governo.

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Vista interior da Ópera de la rue Richelieu. Desenho do arquiteto Victor Louis.

Em 14 de fevereiro de 1820, o duque de Berry, Carlos Fernando de Artois (1778-1820), sobrinho do rei Luís XVIII (1814/18150-1824), e filho do futuro rei Carlos X (1824-1830), foi assassinado na porta do teatro por um fanático bonapartista, chamado Louis Pierre Louvel (1783-1820) que pensava estar eliminando o último descendente Bourbon e pretendente ao trono da França.

Puro engano dele, pois sete meses depois, nasceu o irmão, duque de Bordeaux, Henrique de Artois (1820-1883), “a criança do milagre”.

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“La Mort du duc de Berry, le 13 février 1820”, por Édouard Cibot (1799-1877).
Museu Carnavalet.

Luís XVIII, logo após o assassinato, ordenou que todas as festividades de carnaval dos dias 14 e 15 de fevereiro fossem anuladas, que a Bolsa de valores festas, bailes e todos comércios públicos fossem fechados, e principalmente que a Ópera de la rue Richelieu fosse demolida e que no lugar, um monumento expiatório em homenagem ao duque de Berry fosse construído.

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Monumento expiatório para o duque de Berry. Destruído em 1830. Coleção: Bnf.

Depois da revolução de 1830 (As três Gloriosas) e a abdicação do rei Carlos X, irmão de Luís XVIII, e pai do falecido duque de Berry, o monumento foi destruído e a urna funerária transferida para a Basílica de Saint-Denis.

Em 1839, foi construído no local, por ordens do rei Luis Filipe I (1830-1848) uma Praça cercada de árvores batizada Place Richelieu, e alguns anos depois (1844) foi decorada com a Fonte Louvois criada pelo arquiteto Louis Visconti (1791-1853).

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Square Louvois (2° distrito de Paris). Foto: Wikimedia Commons.

Refeita sobe Napoleão III, foi reinaugurada em 1859 com nome de “Square Louvois”.

Ópera Le Pelletier

Com a demolição da Ópera de la rue Richelieu, um nova sala precisou ser urgentemente construída para atender um público exigente de divertimentos (bailes, festas, encontros…,) e de grandes espetáculos de óperas, de danças e de músicas.

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Litografia “Fachada da Ópera Le Pelletier”, de C. Motte. Museu Carnavalet.

A área escolhida fazia parte do jardim do “Hôtel de Choiseul”, antiga mansão particular do duque Étienne-François de Choiseul (1719-1785), principal ministro de Luís XV (1715-1774) construída entre 1755 e 1757.

A propriedade que já havia sido declarada bem nacional pelo comitê revolucionário em 1793, e ocupada por militares, em 1804, serviu como residência do governador de Paris e em 1812, sede do Ministério de Manufaturas e Comércio e propriedade definitiva do Império.

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Entrada da “Opéra Le Pelletier”, (Academia Real de Música), na rue Le Pelletier.

A Ópera Le Pelletier (ou Sala Le Pelletier) foi rapidamente construída com grande parte do materiais retirados antes da demolição da Ópera de la rue Richelieu.

Em praticamente um ano de obras, iniciadas em 13 de agosto de 1820 foi finalizada para ser inaugurada em 16 de agosto de 1821 como um teatro provisório, pois o governo procurava por um área maior e melhor situada, para um projeto definitivo.

Recebeu vários nomes, mas ficou realmente conhecida como Ópera Le Pelletier, por estar localizada na rue Le Pelletier.

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Ópera Le Pelletier (1821). Livraria Pública de Nova Iorque.

Quanto aos nomes oficiais foram mudando conforme o soberano no poder.

Entre 1821 e 1848, durante o período da Restauração da monarquia, com os reis: Luís XVIII, Carlos X e Luís Filipe I, chamava-se: “Académie Royale de Musique”.

Entre 1848 e 1851, com o 1° Presidente da França, Carlos Luís Napoleão Bonaparte (futuro Napoleão III), chamou-se: Académie Nationale de Musique.

Entre 1852 e 1870, durante o Segundo Império, com Napoleão III, passou a ser chamada de “Académie Impériale de Musique” e por último entre 1871 e 1873, na Terceira República, “Académie nationale de Musique”.

Com as mudanças frequentes de governo e diversas crises politicas, permaneceu funcionando por mais de 52 anos, até ser destruída inteiramente por um grande incêndio, na noite do 28 ao 29 de outubro de 1873.

Com poucos recursos o arquiteto François Debret (1777-1850) usou na construção materiais frágeis, como gesso e altamente inflamáveis como madeira nas suas estruturas, além de vários elementos decorativos e estruturais da antiga Ópera de la rue Richelieu que foram desmontados e reconstruídos na nova Ópera, antes de ter sido destruída em 1820.

Surgiram novidades tecnológicas, como o uso pela como 1° vez do gás de hidrogênio, possibilitando a iluminação da fachada, dos corredores, do lustre central da plateia, o palco e os efeitos de cena.

O salão era amplo, bem distribuído, com grandes aberturas e tinha uma excelente acústica devido a leveza da estrutura de madeira, do teto, da cúpula e das paredes. Tinha uma capacidade aproximadamente 1.800 lugares.

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O compositor e crítico musical da época Castil-Blaze (1784-1857) escreveu o seguinte comentário sobre a nova Ópera Le Pelletier:

Pour les spectateurs assis au parterre, la salle Le Peletier est absolument la même que la salle Richelieu, seulement on a donné six places de plus à l’ouverture de l’avant-scène. Le théâtre est beaucoup plus profond que l’ancien, les corridors plus larges, une immense galerie servant de foyer au public ; telles sont les améliorations que l’on remarque dans la nouvelle salle ; mais gare à l’incendie ! Il serait effroyable. Cet édifice, n’ayant pas de murs pour contenir le feu, formera cheminée,…

Tradução livre:
“Para os espectadores sentados na plateia, a sala Le Peletier é absolutamente a mesma que a sala Richelieu, apenas mais seis cadeiras foram instaladas na abertura do proscênio. O teatro é muito mais profundo que o antigo, os corredores mais amplos, uma imensa galeria servindo de hall ao público; essas são as melhorias que se nota na nova sala; mas cuidado com o fogo! Seria terrível. Este edifício, sem paredes para conter o fogo, formará uma lareira, …

Durante anos a sala foi palco de importantes óperas e bales, recebendo os maiores compositores e os mais famosos cantores do século XVIII.

Em 14 de janeiro de 1858, o imperador Napoleão III (1852-1870) e sua esposa a imperatriz Eugénia de Montijo (1826-1920) quando chegavam escoltados por soldados a cavalos, para assistirem a um espetáculo na Ópera sofreram um grave atentado a bombas, bem em frente a entrada.

Graças a blindagem da charrete, o casal imperial escapou sem nenhum arranhão, mas entre soldados, guardas, agentes de policia, espectadores e passantes, foi registrado 156 pessoas feridas e 12 pessoas mortas.

“Atentado de Felice Orsini contra Napoleão III em frente a de Ópera Le Pelletier em
14 de janeiro de 1858″, obra de H. Vittori Romano, pintado em 1862.

Napoleão III e a esposa Eugénia, aconselhados a não criarem um movimento de pânico nas pessoas que os aguardavam no interior do teatro, e que certamente escutaram as três explosões, entraram e assistirem todo o espetáculo, como se nada tivesse acontecido.

O líder do atentado, o italiano Felice Orsini (1919-1958), revolucionário que lutava pela independência da Itália, juntamente com mais três comparsas Pieri, Gomez e Rudio foram presos e julgados poucos meses depois.

Felice Orsini, autor do atentado contra Napoleão III, em 14 de janeiro de 1858.
Obra de Louis Bucheister. Musée Carnavalet.

Em 13 de março de 1858, Orsini e Pieri foram guilhotinados, quanto a Rudio e Gomez, foram condenados a prisão perpétua com trabalhos forçados.

Consequência desse atentado, o imperador Napoleão III, decidiu intervir militarmente na Itália, para liberar as cidades ocupadas pelos Austríacos, e tomou a decisão que fosse construído uma novo teatro em Paris, (futura Ópera Garnier), moderno, rico, espaçoso e majestosamente bem localizado de forma a marcar seu governo na história da França.

Durante a construção da Ópera Garner (de 1862 a 1875,) a Ópera Le Pelletier permaneceu funcionando até ser destruída completamente por um grande incêndio, na noite do 28 ao 29 de outubro de 1873.

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Litografia: “Incêndio da Ópera Le Pelletier em 28 de outubro de 1873”.
Autor desconhecido.

O terreno onde se encontra a Ópera local permitiu a uma nova reurbanização do bairro e das ruas do seu entorno. Hoje, não existe mais nenhuma sinal da sua existência.

Ópera Garnier

Em 29 de dezembro de 1860, através de um decreto ministerial de utilidade pública, foi aberto um concurso arquitetônico para a construção de uma nova Ópera de Paris para substituir a velha e a inconveniente Ópera Le Pelletier, onde o imperador Napoleão III e esposa sofreram um atentado em 14 de janeiro de 1858.

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Elevação fachada principal da Ópera Garnier. Desenho de Charles Garnier.

Entre 171 projetos, o escolhido foi o desconhecido e jovem arquiteto de 36 anos, Charles Garnier (1825-1898) que até aquele momento ainda não havia construído nada de grande importância, mas tinha em seu currículo um importante prêmio de arquitetura em 1840, em Roma, Itália.

Questionado sobre suas chances de ganhar, respondeu um pouco antes de sair o resultado: “J’ambitionne beaucoup, mais j’espère peu” (tradução: “Sou bastante ambicioso, mas espero pouco”.)

Charles Garnier, arquiteto da Ópera de Paris ou Ópera Garnier.

Charles Garnier foi declarado vencedor por unanimidade do júri, contra importantes nomes da arquitetura como, Charles Rohault de Fleury (1801-1875), arquiteto oficial dos monumentos de Paris, e principalmente Eugène Viollet-le-Duc (1814-1879), arquiteto favorito da imperatriz Eugénia, (esposa de Napoleão III), muito conhecido por suas restaurações em diversas construções medievais pela França, castelos, fortes e igrejas (ex: Catedral de Notre-Dame de Paris).

Construída entre 1862 e 1875, principalmente para satisfazer os prazeres luxuosos exigidos pela classe aristocrática de Paris e principalmente de servir como propaganda política de Napoleão III (1852-1870), que após o atentado precisava reforçar sua soberania e seu poder imperial.

Charles Garnier (segundo da direita) e equipe trabalhando no projeto (ca. 1870).
Foto: Louis-Émile Durandelle (1839–1917)  

Garnier, jovem artista romântico concentrou toda sua energia, criatividade e seus talentos acadêmicos ao serviço desse projeto na qual dedicou-se 14 anos de sua vida (1891-1875), finalizando como uma proeza arquitetônica e determinante para história universal, realizando assim uma das óperas mais belas do mundo, copiada (e/ou inspirada) por arquitetos de vários países.

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Esboço da entrada lateral do imperador feito pela equipe de Charles Garnier.

Conhecida como Ópera de Paris passou a ser chamada como, Ópera Garnier (ou Palácio Garnier), para ser diferenciada da outra monumental Ópera de Paris, chamada Ópera da Bastilha, inaugurada em 13 de julho de 1989.

A localização da nova área para construção da nova Ópera aproveitou-se das grandes reformas urbanas de Paris, realizadas pelo barão Haussmann (1809-1891), prefeito da cidade que haviam sido começadas em 1852.

Muito bem pensada pois ficou estrategicamente próxima ao Palácio das Tulherias e ao Museu do Louvre ligada somente por uma nova avenida chamada Avenue Napoléon, (homenagem ao próprio), mas rebatizada após sua queda em 1870, como Avenue de l’Opéra (Avenida da Ópera) em 1873.

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Avenida da Ópera (Avenue de l’Opéra). Foto: A.G. Photographe.

Uma avenida sem arborização, pensada justamente para não comprometer a perspectiva da Ópera, e larga o bastante para passagem de tropas militares em casos de revoltas populares contra o imperador.

Os trabalhos só começaram em 21 de julho de 1862, quando foi colocada a 1° pedra pelo conde Alexandre Colonna Walewski (1810-1868), filho legítimo de Napoleão Bonaparte I, com sua amante a polonesa a condessa Marie Walewska (1786-1817), presidente do júri do concurso que declarou Garnier vencedor.

Colocação da 1° pedra da Ópera Garnier pelo Conde Walewski em 21 de julho de 1862. Gravura 1862, de T. Thorigny, F. Lix e E. Roevens.

Mas as obras só foram terminadas em 1875, por diversos fatores alheios a vontade Garnier. Por problemas administrativos, políticas e financeiros (exemplo: custo global da obra, bem mais alto do que havia sido estipulado no início do projeto, por Garnier).

Além de problemas técnicos, Charles Garnier em 1861 quando começou a trabalhar nas fundações do edifício, não esperava descobrir um terreno úmido e pantanoso. Para lutar contra a infiltração de água, ele primeiro pensou em usar bombas, sem sucesso, depois passou para um outro sistema que também foi um fracasso. Até surgir a ideia de construir um reservatório de concreto impermeável.

Inacessível ao público, e repleto de carpas e outros peixinhos, hoje esse lago artificial, tem uma dupla função, reserva de água para os bombeiros de Paris, em caso de incêndio da Ópera, e base estrutural do conjunto da Ópera.

Lago subterrâneo da Ópera Garnier. Foto: Google “Arts & Culture”.

Essa história deu origem à lenda de um lago subterrâneo alimentado por um rio que leva o nome de “Grange-Batelière”, e relatado no romance, “O Fantasma da Ópera” (1909), de Gaston Leroux (1868-1927).

Outro fator de demora para finalizar a obra foi uma longa paralização durante a guerra franco-prussiana (1870 a 1871), onde uma área da Ópera foi reservada como depósito de mantimentos para os soldados e depósito de fenos para cavalos. Como consequência os recursos foram desviados para construção do novo hospital de Paris, “Hôtel-Dieu”.

E por último com o fim do regime imperial de Napoleão III, em 1870, todos problemas da finalização da obra ficaram para serem resolvido por Garnier e os novos dirigentes republicanos.

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Litografia de autor desconhecido da Ópera Garnier.

Inauguração em 5 de janeiro de 1875.

Foi no 2° Império com Napoleão III, que começou a construção, mas foi na Terceira República que a Ópera Garnier foi inaugurada em 5 de janeiro de 1875, pelo presidente Patrice Mac-Mahon (1873-1879) com a presença do lorde-prefeito de Londres, do rei da Espanha, Afonso XII (1874-1885), da sua mãe e ex-rainha Isabel II (1833-1868) e mais 2 mil pessoas vindas de toda Europa.

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Inauguração da Ópera Garnier, 5 de janeiro de 1875.
Crédito foto: Bridgeman Images/RDA.

O programa apresentado nesse dia foram:

  • Abertura com: “La Muette de Portici”, de Auber (1782-1871);
  • Os dois primeiros atos: “La Juive” de Halévy (1799-1862);
  • “L’ouverture de Guillaume Tell”, de Rossini (1792-1868);
  • “La Bénédiction des poignards des Huguenots”, de Giacomo Meyerbeer (1791-1864);
  • La Source“, balé de Léo Delibes (1836-1891).

Por incrível que pareça Charles Garnier não foi convidado para inauguração da sua Ópera, pois líderes do novo governo, o achavam ainda muito ligado ao antigo regime e a política imperialista de seu amigo e falecido Napoleão III (1808-1973). Sua presença somente aconteceu porque comprou um camarote no 2° nível.

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Triunfo de Charles Garnier no dia da inauguração da Ópera Garnier.
Gravura de Lix e desenho de Godefroy Durand.

A ingratidão do governo contra Garnier, entretanto foi recompensado na saída do espetáculo, pois ao ser reconhecido na grande escadaria foi ovacionado e aplaudido por uma multidão de pessoas, como um verdadeiro “Star” e herói, da noite. Para ele, noite de glória e de triunfo pessoal.

A grande Escadaria:

No programa arquitetônico de Charles Garnier, a grande escadaria foi pensada para ser o verdadeiro coração do teatro.

Seguindo o modelo do teatro de Bordeaux, ele desenvolveu uma estrutura monumental de 30 metros de altura, para uma escadaria em mármore branco, com rampas policromadas e dupla revolução. De cada lado há escadas secundárias que levam aos vestíbulos e aos diferentes andares do espetacular salão.

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Cercada por grandes arcos sustentadas por colunas duplas e quadruplas, galerias que se abrem no vazio central da escadaria, oferecendo sacadas de várias colorações de mármore, feitas para apreciar o desfile dos -espectadores nos degraus (palco dos espectadores). Um teatro antes do outro grande teatro (plateia e cena).

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Grande escadaria da Ópera Garnier. Foto: Wikimedia Commons.

O lindo colorido de pedra é reforçada por uma forte iluminação dourada fornecida pelos grandes candelabros de ferro fundido.

O conjunto todo da Ópera é uma verdadeira propagando da indústria mineralógica do Império Francês. Um trabalho original pensada para uma sociedade elitista, onde Charles Garnier teve que contar com grandes pintores e renomados escultores, bem com uma equipe especializada de trabalhadores e artistas da França.

O projeto completo esconde uma tecnologia de vanguarda, reunindo pinturas, esculturas e artes decorativas no mesmo conjunto arquitetônico. Imaginado com um “Templo das Artes”, o expectador ao penetrar pela escadaria, abandona do mundo terrestre muitas vezes cruel, triste e sem divertimentos, para embarcar num mundo de sonhos, festas, fantasias, riquezas e belezas efêmeras como descrito no paraíso

A grande Sala:

Coração do teatro, Garnier depois de estudar todas as principais salas da Europa, concluiu que o desenho da sala em forma de ferradura era a melhor solução para se ter uma boa visão do palco em qualquer lugar da plateia e dos camarotes e a melhor acústica.

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Sala da Ópera Garnier em 1936. Teto pintado por Eugène Lenepveu (1819-1898).
Foto: Wikimedia Commons.

A cor avermelhada dos assentos foi especialmente escolhida para dar mais brilho e rejuvenescimento nos rostos femininos. E por todos os lados, pinturas em tons ocre e dourados sobre as decorações ornamentais de estuques e gessos.

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Grande Sala da Ópera Garnier. Crédito: Zipporah Films.

Decorações essas que apesarem de serem discretas complementam a harmonia da cena representada pelos cantores e dançarinos do momento.

etalhes decorativos nos camarotes. Foto: Google Arts e Culture.

Pinturas do Teto.

A pintura original do teto realizada em 1872, por Eugène Lenepveu (1819-1898), representava “O triunfo da beleza” com o tema: Les muses et les heures du jour et de la nuit“.

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Antiga pintura do teto de Eugène Lenepveu, em 1946. Foto: René Jacques.

Em 1960, a pedido do Ministro da Cultura, André Malraux, (1901-1976), o teto de Lenepveu foi encoberto por pinturas coloridas de Marc Chagall ((1887-1985), representando 14 grandes compositores de óperas e balés, (ler artigo aqui).

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Pinturas de Marc Chagall, no do teto da Ópera Garnier. Foto: Internet.

A intervenção de Chagall foi considerada para muitos, uma ruptura com a arquitetura eclética de Garnier, mas ao mesmo tempo, a beleza da obra deu continuidade para harmonia da sala, onde tudo ficou mais vibrante, puro, intenso, onde o real e o imaginário se encontram juntos e sem limites.

O Lustre.

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Lustre central da Ópera Garnier. Foto: Agustin Raluy.

O lustre de 8 toneladas de bronze e cristal, e 340 lâmpadas (antigos bicos de gás) foi desenhado por Garnier e modelado por Jules Corboz, Durante dois anos foi objeto de muita polêmica e bastante criticado por obstruir a vistas do palco nos expectadores sentados nos camarotes mais alto, de prejudicar a acústica ambiente e de impedir a visão das pinturas de Eugène Lenepveu, no teto.

Garnier já prevendo essa reação quando apresentou o seu projeto fez uma brilhante defesa em 1871, incluída no seu livro “Le Théâtre” onde conseguiu como muita astúcia, aprovação da maioria dos membros da comissão administrativa da construção da Ópera. Instalada em 1874, o lustre inegavelmente hoje contribui para magia do lugar e do espetáculo.

Em 20 de maio de 1986, quando 2 mil pessoas assistiam a ópera-balé, Hellé, do compositor francês, Étienne-Joseph Floquet (1748-1785), um dos oito contrapesos de 750 kg, que sustentavam o lustre, despencou caindo sobre o camarote de n°4, poltrona 11 e 13, matando uma senhora e fazendo muitos feridos por causa do pânico das pessoas. Quanto ao lustre, ele nem se mexeu.

Pôster publicitário do filme ” O Fantasma da Ópera” (1943), dirigido por Arthur Lubin.

Esse acontecimento inspirou o escritor Gaston Leroux (1868-1927), no seu livro, “O fantasma da Ópera” (1909), no balé “Le Fantôme de l’Opéra” (1980), musicado por Marcel Landowski (1915-1999) e coreografado por Rolando Petit (1924-2011) e versões para o cinema, televisão, desenhos animados, musicais e teatro.

“Le Grand Foyer”.

Charles Garnier se inspirou para idealizar “Le Grand Foyer” (ou Grande Galeria), no projeto de Charles Le Brun (1619-1690), realizado para “Galeria dos Espelhos”, no Castelo de Versalhes.

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“Le Grand Foyer” da Ópera Garnier. Foto: Wikimedia Commons.

Um impressionante salão com 54 metros de comprimento por 13 de largura e 18 de altura calculado a partir da capacidade da sala da Ópera, e do número de espectadores que provavelmente frequentariam o “Foyer” no intervalo. O jogo de janelas e espelhos alternados acentuam ainda a vasta dimensões do ambiente.

A tonalidade da pintura dourado nas paredes, cornijas, colunas e detalhes do teto criaram um ambiente de sofisticação e muito luxo. A iluminação onipresente e moderada, por dez lustres em cobre dourado e verniz inglês, foram instaladas de maneira para a serem vistas pelas pessoas que transitam pela Avenida da Ópera.

Originalmente, o “Grand Foyer” nas salas de teatros eram reservado aos homens mas essa tradição foi quebrada no dia da inauguração pela rainha-mãe da Espanha, Isabel II (1833-1868) que fez questão de visitá-la, desde então passou a ter uma frequentação constante entre as mulheres.

As três principais Óperas de Paris
Le Grand Foyer. Foto: Halzaim.

Com o passar do tempo, a galeria se tornou o principal local de encontros e caminhadas dos espectadores durante os intervalos dos espetáculos. Hoje é muito usada como salão de recepção, em desfiles de moda, festas de casamentos e outras comemorações.

As 33 pinturas do teto, de Paul Baudry (1828-1886) foram realizadas durante 9 anos em seu ateliê em Paris (de 1866 a 1874). Para compô-las nos 500 m² de área, Paul Brady viajou para Roma em 1864, para estudar os afrescos de Michelangelo (1475-1564), na Capela Sistina (Vaticano), as pinturas de Annibale Carracci (1560-1606), no Palácio de Farnésio, e outros locais da Europa.

As três principais Óperas de Paris
Pinturas no teto do “Le Grand Foyer”, na Ópera Garnier, de Paul Brady.
Foto: Peter Haas.

O painel central evoca a “Música”, o da esquerda a “Comédia” (lado rue Auber), e à direita “Tragédia” (lado Place Jacques Rouchés) e estão rodeado por 8 painéis representando “As Musas”, entidades da mitologia grega que possuem a capacidade de incentivar a criação artísticas e científicas, Fechando o conjunto com 10 medalhões sobre o tema da “Música”.

Fachada Principal.

A fachada principal (lado sul) foi trabalhada por Garnier como palco e cenário do espetáculo e a Praça da Ópera, em frente, sua plateia. Além de integra-se também na perspectiva da avenida.

Ela tem uma importante função de romper com o mundo ordinário, trazendo o espectador para um mundo extraordinário de luxo, riquezas, sonhos e fantasias, convidando assim todos a entrarem como atores numa peça imaginária.

A missão da fachada portanto e atingir a alma e o coração das pessoas, com encantamentos decorativos, para entrem cem conexão com magia de uma Ópera.

Constitui, de certa forma, o manifesto do artista. Seu layout e proporções acadêmicas, bem como sua rica policromia, expressam, em uma síntese hábil, a própria essência da arquitetura eclética.

As três principais Óperas de Paris
Fachada principal da Ópera Garnier e seus principais escultures. Foto: P. Rivera.

O próprio Garnier escolheu os 14 pintores, os mosaicistas e os 63 escultores, para participar da ornamentação da fachada, incluindo a polêmica obra de Jean-Baptiste Carpeaux (1827-1875), chamada “A Dança” (1869) que devido a nudez dos personagens foi vandalizada em agosto de 1869, transferida em 1964 para o Museu do Louvre e depois, em 1986, para o Museu d’Orsay.

“A Dança” (1869), de Jean-Baptiste Carpeaux. Museu d’Orsay. Foto: Sailko.

Na fachada atual da Ópera Garnier foi instalada em 1964, uma cópia do realizada pelo escultor Jean Juge (1898-1968) e Paul Belmondo (1898-1982), pai do famoso ator Jean-Paul Belmondo.

Coroamento do telhado.

No alto do telhado da parte posterior da Ópera que se encontra acima da cúpula em forma de coroa da imperatriz Eugénia de Montijo (1826-1920), esposa de Napoleão III), estão representado três esculturas em bronze realizado por Aimé Millet (1819-1891), em 1869, onde vemos Apolo, no centro, acompanhado das alegorias da Música e Poesia.

Apolo, com os ombros cobertos por uma capa amarrada no pescoço, caindo nas costas, levanta com as suas duas mãos uma lira dourada, acima da cabeça (símbolo da canção, poesia e música).

Poesia sentada, (à direita), vestida completamente, tem a cabeça levemente inclinada para Apolo segurando uma caneta com a mão direita levantada, pronta para escrever numa prancha segurada pela mão esquerda.

Música, (à esquerda), com a cabeça levemente para baixo está sentada com a perna direita dobrada segurando com as duas mãos mão esquerda um tambor basco (pandeiro). Está vestida com a túnica laconiana cortada; as pernas nuas e sandálias de cortume.

Millet levou quase 18 meses para executar essa composição colossal. O conjunto é eletrificado contra pousos de pássaros (principalmente pombas), e a Lira serve também como para-raios.

Arquitetura da fachada.

a fachada substitui a desordem de nosso mundo por uma arquitetura de ordem clássica inspirada no mundo grego e romano.

Arquitetura eclética de Garnier e sua Ópera em Paris. Foto: Nicolas Barthe.

Garnier se inspirou para para desenhar o arcos centrados do nível térreo da fachada do Palacete (Hôtel”) da Marinha (1768), na Praça da Concórdia, em Paris, do arquiteto Jacques-Ange Gabriel (1698-1782).

Palacete (Hôtel”) da Marinha, antigo Palacete Guarda Móvel da Coroa.
Colunatas do Louvre. Foto: Pixabay.

Para o 1° andar, Garnier se inspirou na obra-prima do classicismo francês, nas Colunatas do Louvre (1668), de Claude Perrault (1613-1688)

Um projeto misturado como duas caraterísticas clássicas e outros elementos arquitetônicos dos estilos; barroco francês, renascimento francês, italiano… Construídos por materiais inovadores, o ferro, vidro, zinco…

O resultado foi um estilo confuso, eclético e sem denominação, mas batizado por Garnier, como Estilo Napoleão III, ao ser questionado pela esposa do imperador, Eugénia de Montijo, no dia da apresentação do projeto nas Tulherias, perguntando que estilo era aquele. Uma resposta que a deixou satisfeita e que certamente o ajudou a vencer o concurso.

Conclusão:

Bem antes da psicologia moderna, Garnier soube influenciar nos humores e nos comportamentos das pessoas, através de uma arquitetura majestosas de cores impactantes estudada a fundo, desde o conforto das poltronas, segurança, ventilação, aquecedores internos. O monumento envolve o espectador de uma forma, que os transforma em atores e membros do espetáculo.

A Ópera Garnier inspirou bem outros teatros pelo mundo, mas também as construções das grandes lojas de departamentos, como “Le Bon Marché“(1869), Le Printemps (1883), Galeries Lafayette (1912), e monumentos como o Grand Palais (1900), Palácio do Trocadero (1878, demolido em 1835).

Uma outra caraterística da Ópera que marcou profundamente sua história para posterioridade foi a funcionalidade de cada espaço.

Tantos os volumes externos, quanto os ambientes internos, foram projetados com funções específicas; entrada exclusiva para charretes coberta para os frequentadores habituais (vips), salões privativos, salas administrativas separado do lado público, galerias de circulações…

Uma grande novidade que tornou-se moda posteriormente foi a instalação do 1° elevador hidráulico ativado por água, num local público. O sultão Aga Khan III, (1877-1957) amante de óperas e frequentador assíduo da Ópera Garnier, que devido a problemas de obesidade financiou esse elevador particular para poder chegar no seu camarote que se encontrava 2° andar.

Elevador de Aga Khan III, na Ópera Garnier. Foto: Wikimedia Commons.

Depois de ter ficado parado por mais 40 anos, seu sistema hidráulico foi modernizado, voltando a funcionar publicamente em 2009, para cadeirantes e portadores de algum deficiência física.

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Imagem capa: Litografia da cena “La Bénédiction des poignards des Huguenots” (Huguenotes), de Giacomo Meyerbeer (1791-1864) na inauguração da Ópera Garnier, em 05 de janeiro de 1875.

3 Comentários


  1. Consegui ler todo o artigo de uma vez. Interessante. Parabéns

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  2. Caro Tom,
    Excelente , minucioso e esclarecedor artigo sobre as três principais Óperas de Paris. Viajei no tempo, li com avidez e apreciei todas as ilustrações e maravilhosas fotos que nos levam a respeitar ainda mais os autores de tão significativas e belas obras que enriquecem a história da humanidade. E o competente Charles arquitetou, construiu e nos deixou realmente um monumento ímpar – a ÓPERA GARNIER ! Lamentável e injusto o autor de tão grandiosa obra não ter sido convidado para a sua inauguração!

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    1. Olá Veralucia! Muito obrigado pelo seu simpático feedback! Artistas impressionantes, muitos esquecidos mas que realmente merecem todo a nosso respeito e admiração por suas grande obras-primas. Valeu!

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