Brasil na Exposição Universal de 1889

Brasil na Exposição Universal de 1889

Tempo de leitura: 23 minutos

A desconhecida história da participação do Brasil na Exposição Universal de 1889, em Paris que ocorreu entre 6 de maio e 31 de outubro. A quarta na capital, depois das exposições de 1857, 1867 e 1878.

A origem das exposições universais começou em 1851, precisamente em Londres (Inglaterra), com o tema: Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todas as Nações (” Great Exhibition of the Works of Industry of all Nations“).

Palácio de Cristal, na Grande Exposição de 1851, em Londres.

Um evento reunido num único e grande pavilhão pré-fabricado de ferro e vidro, chamado Crystal Palace (Palácio de Cristal) realizado pelo arquiteto ingles, Joseph Paxton (1803-1865) e construído em pleno parque central de Londres, o Hyde Park. Tinha como objetivo de apresentar para o mundo a supremacia tecnológica das produções artesanais e industriais britânicas e de 28 países convidados.

O Brasil havia sido convidado, mas só foi se apresentar oficialmente na Exposição Universal de Paris em 1855, novamente em Londres em 1862, em Viana na Áustria, em 1873, e na Filadélfia, EUA, em 1876.

Foram participações discretas por ricos homens de negócios, arquitetos, engenheiros e empresários da indústria cafeteira e pequenos agricultores.

O Brasil não tinha um local específico para mostrar os produtos, somente foi possível na Exposição Universal de 1889, em Paris, com dois locais: O Pavilhão do Brasil e o Palácio da Amazônia (ou Pavilhão da Amazônia ou Casa Inca, como foi chamado no catálogo oficial da Exposição.

Exposição Universal de 1889.

Cartaz propaganda da Exposição Universal de 1889 em Paris. Autor desconhecido.

A Exposição Universal de 1889 organizada pelo engenheiro Jean-Charles Alphand (1817-1891) teve como a maior atração a Torre Eiffel construída especialmente em ferro, para celebrar os 100 anos da Revolução francesa e principalmente ilustrar o progresso tecnológico da engenharia, arquitetura e da arte francesa.

Os edifícios construidos para o evento ficaram espalhados numa área aproximada de 50 hectares (50 mil m²) e setorizada conforme temas de interesses:

  • A Esplanada dos Inválidos e o Quai d’Orsay ficaram para as exposições das colônias francesas, do Ministério da Guerra, Agricultura, Alimentação, Ensino de Economia Social e Vila Operária.
  • O “Champs de Mars” (Campos de Marte) e o Trocadero para as apresentações das artes decorativas, belas-artes, maquinários, agricultura e tecnologias indústrias francesas e países convidados com suas matérias-primas e produtos culturas locais.
Brasil na Exposição Universal de 1889
Planta Geral da Exposição Universal de 1889, em Paris. Fonte: Gallica.

Na planta geral acima, podemos ver assinalada com um círculo em vermelho a localização do Pavilhão do Brasil, com um círculo em azul, o Palácio da Amazônia e um quadrado em amarelo, a localização da Torre Eiffel.

Os triunfos da Arquitetura Metálica:

A Exposição Universal de 1889 foi a ocasião para a República Francesa glorificar todo o seu “know-how” (saber) e sua posição de liderança nas inovações arquitetônicas e industriais no mercado mundial.

Consolidar o progresso tecnológico nas construções em ferro e vidro e as produções artísticas e decorativas.

O ferro e o vidro foram os materiais obrigatórios as serem utilizados em todas edificações da exposição.

Com esse tema, duas grandes construções marcaram a história do evento de 1889, a Torre Eiffel e a Galeria das Máquinas.

Torre Eiffel:

Inaugurada alguns dias antes (31 de março) da abertura oficial (5 de maio), a Torre Eiffel foi uma imensa propaganda industrial da engenharia metalúrgica e artísticas da França.

Em 1884, Maurice Koechlin (1856-1946) e Émile Nouguier (1840-1897) engenheiros da empresa EIFFEL & CIA, projetaram uma “Torre de 300 metros” (“Tour de 300 mètres”, 1° nome da torre) para um concurso que seria realizado em maio de 1886, para ser construída na futura Exposição Universal de 1889, em Paris.

Croquis da Torre de 300 metros (futura Torre Eiffel), projeto de M. Koechlim e E. Nouguier

Gustave Eiffel (1832-1923), o presidente da empresa, Eiffel Engenharia aprovou a ideia, comprou os direitos de autoria dos dois engenheiros Koechlim e Nouguier e pediu ao arquiteto, Stephen Sauvestre (1847-1919) para que o redesenhasse completamente, dando uma nova funcionalidade e plasticidade para torre.

Torre Eiffel em 1889, redesenhada por Stephen Sauvestre. Foto: Autor anônimo

No final do concurso, Gustave Eiffel saiu vitorioso, entre os 107 projetos concorrentes. Participou na construção como engenheiro calculista e engenheiro responsável na execução do projeto.

Engenheiro Gustave Eiffel (1832-1823). Ilustração de François Touranchet.

Como a verba destinada ao ganhador do concurso para construção foi insuficiente, Eiffel financiou com recursos próprios quase toda a construção, em troca de uma concessão para comercializar a subida dos visitantes a torre até 1909, ano que deveria desmontá-la e entregar o espaço livre para a prefeitura de Paris.

Com a proposta aceita, a construção foi finalizada e inaugurada em 31 de março de 1889. No final de 1900, com a exploração da subida, Eiffel recuperou todo o dinheiro investido e ainda teve nove anos de lucro até o término do contrato.

Graças a iniciativa de Eiffel que financiava projetos científicos no alto da torre, a prefeitura de Paris ao tomar posse preferiu continuar usando-a como laboratório de experiências meteorológicas, aerodinâmicas, de radiodifusão, telégrafo sem fio e outras novidades e invenções da época.

Durante a 1° Guerra Mundial (1914-1918), as antenas de rádios foram decisivas para barrar a entrada dos alemães em Paris e consagrar a vitória dos aliados e a rendição dos inimigos.

Antenas atuais da Torre Eiffel. Foto: autor desconhecido.

Curiosidades:

Quando ele construiu sua famosa torre incluiu um apartamento privativo com uma sala grande mobiliada com um sofá-cama, três pequenos sofás, um piano, mesas de escritório, cozinha, banheiro com toalete e ducha. Como não pensava em morar e sim receber confortavelmente amigos, colegas engenheiros, cientistas e trabalhar em experimentos científicos, nunca colocou uma verdadeira cama de dormir.

Escritório de Gustave Eiffel, no 3° andar da Torre. Foto: site Tour-Eiffel.

Por causa das novas tecnologias que surgiram nos anos pós-guerra, como por exemplo, a chegada da televisão, e por falta de outros espaços no alto da torre, grande parte do apartamento acabou sendo utilizado para armazenamento de equipamentos técnicos, reduzindo drasticamente o antigo espaço numa pequena área que podemos visitar hoje através de uma parede de vidro.

A foto abaixo é uma apresentação do restou do antigo apartamento secreto do Gustave Eiffel. Apartamento que só veio ao conhecimento público após a 2° Guerra Mundial.

Reconstituído com móveis originais e papéis de parede do século XIX, sofás de veludo, um fonógrafo e silhuetas de três manequins de cera, realizado por artistas do Museu Grevin de Paris, podemos ver à direita, Gustave Eiffel (1832-1923), sua filha Claire (ao fundo), recebendo Thomas Edison (1847-1831), apresentando seu aparelho de música, (futuro rádio), que faria sensação na Exposição Universal de 1900.

Reconstituição em cera de T. Edison, G. Eiffel e sua filha Claire. Foto: site Tour-Eiffel.

Gustave usou seu sobrenome Eiffel como propaganda do seu escritório de engenharia Eiffel & Cie. Uma bela jogada de puro marketing comercial. Com o passar do tempo, o nome da torre ficou mais conhecida, que ele mesmo. Mais de 130 anos depois, muitas pessoas não sabem quem ele foi.

Galeria das Máquinas:

A segunda maior sensação depois da Torre Eiffel foi a Galeria das Máquinas, chamado também, Palácio das Maquinas, considerado de uma grande proeza arquitetônica e a maior obra da exposição por suas dimensões gigantescas: 115 metros de largura, 48 metros de altura e 420 metros de comprimento.

Projeto do engenheiro Victor Contamim (1840-1893) e dos arquitetos Ferdinand Dutert (1845-1906) e Stephen Sauvestre (o mesmo da Torre Eiffel).

O edifício tinha com objetivo abrigar todas as invenções nos campos industriais e técnicos (motores, motores a vapor, etc.) dos países convidados e principalmente da França.

Brasil na Exposição Universal de 1889
Galeria das Máquinas. Exposição Universal de 1889, em Paris. Foto: autor desconhecido.

Construída no final do Champs-de-Mars com técnicas habitualmente utilizadas em grandes pontes foi projetada por um sistema de arcos articulados em ferro, sem colunas centrais que proporcionou uma imenso vão livre para instalação de maquinários e peças industriais.

A originalidade dessa arquitetura, proporcionou, beleza, leveza e imensidão que vazia, parecia levitar.

Galeria das Máquinas, na Exposição Universal de 1889 em Paris.

O Brasil de forma independente esteve presente nessa Galeria das Máquinas com o comendador Alfredo Michel, que apresentou um novo sistema de alambiques para destilação de cachaça no vácuo.

Brasil na Exposição Universal de 1889

A Galeria das Máquinas, depois de servir também na Exposição Universal de 1900, não teve o mesmo destino que a Torre Eiffel, pois foi totalmente desmontada em 1910 e o material aproveitado em outras obras pela França.

Desmontagem Galeria das Máquinas, em 1910.

Palácio da Amazônia ou Casa Inca:

Enfileiradas ao longo do rio Sena, próximas a Torre Eiffel foram construídas 44 habitações pelo arquiteto Charles Garnier (1825-1898), o mesmo que projetou a Ópera Garnier, em Paris.

Projeto denominado: “História da Habitação Humana” tinha como objetivo traçar o desenvolvimento do “habitat” humano reconstituindo e colocando lado a lado as mais diferentes habitação desde a pré-história até o Renascimento.

Habitações de Charles Garnier. Foto: Roger-Viollete e colorido por Jean-Michel Gillet.

À esquerda podemos ver um chalé no estilo escandinavo, de madeira e duas casas no estilo românico, em diferentes épocas: Idade Média (à esquerda) e a Renascença (à direita).

O Brasil também esteve presente nessa retrospectiva da História da habitação humana, com o Palácio da Amazônia ou Pavilhão da Amazônia ou Casa Inca (catálogo oficial).

Entre as 44 casas de Garnier, construídas uma ao lado da outra, dependendo de onde vinha a pessoa, ela era a primeira ou a última a ser visitada.

Brasil na Exposição Universal de 1889
“Palácio da Amazônia”, na “História das Habitações”, por Charles Garnier.

O termo Casa Inca dado pelo franceses ficou inapropriado para apresentar uma exposição sobre a cultura indígena na região Amazônica, e naturalmente os visitantes passaram a chamá-la de Palácio da Amazônia.

Nas documentações brasileiras sobre a exposição de 1889, essa nomenclatura Casa Inca não consta, mas aparece como: Pavilhão da Amazônia.

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Palácio da Amazônia ou Pavilhão da Amazônia (ou Casa Inca).
Foto: Acervo Museu Nacional (RJ).

Exposição coordenada pelo brasileiro Ladislau de Souza Mello Netto (1838-1894), botânico e diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro que levou para Paris aproximadamente 190 objetos de arqueológica e etnográfica brasileira encontradas na sua maioria das regiões do Amazonas, Acre, Pará (Ilha do Marajó), Goiás, Mato Grosso, São Paulo, Minas Gerias, Bahia, Alagoas, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Brasil na Exposição Universal de 1889
Vista interna com detalhes de peças do setor de arqueologia no Pavilhão da Amazônia (ou Casa Inca), na Exposição Universal de 1889 em Paris, montada por Ladislau Netto.
Acervo: Museu Nacional (RJ).

Pratos, urnas funerários, vasos decorados, estatuetas antropomórficas (forma humana), lanças, pontas de flechas em silex, machados, instrumentos de música, figuras em argila, ornamentos indianos (colares, braceletes, brincos), redes de pesca e outros.

Objetos que após a exposição voltaram para coleção do Museu Nacional do Rio de Janeiro, mas que infelizmente muitos deles foram queimados e perdidos no grande incêndio do museu em 02 de setembro de 2018.

Atualmente está em curso um trabalho dificílimo de recuperação de alguns desses objetos achados nos escombros.

Pavilhão do Brasil:

Para muitos foi um verdadeiro sucesso e uma enorme surpresa para quem conheceu o pequeno Pavilhão do Brasil com suas vegetações exuberantes e o seu clima tropical.

Brasil na Exposição Universal de 1889
Pavilhão do Brasil, na Exposição Universal de 1889, em Paris. Desenho de M. Dosso.

A participação do Brasil foi decidida em 1877, numa reunião em Belém (Pará) com importantes personalidades da cidade, mais a presença do historiador Barão de Santa Anna Néry (1848-19 01), um dos maiores divulgadores da cultura brasileira da época e o arcebispo de Belém, Dom Antônio de Macedo Costa (1830-1891), que falava francês perfeitamente por ter feito seus estudos eclesiásticos na França.

Com a aprovação do imperador do Brasil, Dom Pedro II (1831-1889), foi constituído em 1888, um Comitê Franco-Brasileiro, por políticos, pesquisadores, historiadores brasileiros e franceses que tinham relações comerciais com o Brasil.

Lembrando que a Exposição Universal em 1889, em Paris foi realizada para se comemorar os 100 anos da Revolução Francesa, e sua realização sofreu fortes críticas dos monarquistas franceses e foi seriamente boicotada por alguns reinos da Europa, por serem contra ao regime republicano, como: Alemanha, Áustria, Hungria, Bélgica, Espanha, Itália, Holanda, Portugal, Reino Unido, Rússia e a Suécia.

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Pavilhão do Brasil na Exposição Universal de 1889, em Paris.

O Brasil foi único país monarquista da América no evento comemorativo a República. Independente das críticas mundiais, Dom Pedro II fez questão de participar pois cultivava boas relações comerciais e diplomáticas com a Terceira Republica da França, além de ter laços familiares com descendentes da monarquia do rei Luís Filipe I de Orleães (1830-1848).

Grupo foi composto com 14 pessoas, tendo como Comissário Geral, o senador, Visconde de Cavalcanti (1829-1899), chefiado por E. Loudelet (Presidente da Câmara Sindical dos Negociantes-Comissionários de Paris), Pector (Presidente da Câmara de Comércio de Exportações), Barão de Santa Anna Néry, para divulgação dos produtos e das riquezas do Brasil e outros.

Brasil na Exposição Universal de 1889
Medalha comemorativa do Pavilhão do Brasil na Exposição Universal de 1889.
Foto: site cgb.fr

Antes de embarcar tudo para Paris houve uma Exposição Preparatória no Liceu de Artes e Ofícios, no Rio de Janeiro, entre 11 de novembro ao 31 de dezembro de 1888, para que um júri de especialistas pudessem escolher os produtos e objetos que mais representariam comercialmente e culturalmente o país.

Nesse mesmo ano de 1888 foi aberto um concurso para arquitetos apresentarem um projeto para construção do Pavilhão do Brasil.

As orientações para os concorrentes eram mais ou menos vagas e permitiam livres interpretações sobre o tema, tinham somente que ter um caráter arquitetônico destinado a exposição de produtos naturais e matérias-primas de um império latino e americano.

O ganhador entre oito concorrentes foi o francês, Louis Dauvergne (1854-1937), jurista, arquiteto perito da Prefeitura do Sena e de vários obras renomadas na França, especialmente em Paris.

Brasil na Exposição Universal de 1889
Desenho do Pavilhão do Brasil, projetado pelo arquiteto Louis Dauvergne.

Foi projetado um edifício todo branco, elegante, construído por estruturas de ferro (material tema da exposição), num estilo náutico hispânico de três andares, com área de 400 m² e uma torre de 40 metros de altura, identificado externamente pela profusão de arcos, janelas mouriscas, azulejaria em faiança e um minarete (torre quadrada de mesquita), com terraço que permitia uma visão ampla da Exposição e da Torre Eiffel.

Embora a “hispanidade” do pavilhão brasileiro, não corresponder ao verdadeiro estilo nacional, ele fazia uma reflexão do Brasil como integrante da América Latina.

Em carta oficial ao governo francês, Dom Pedro II solicitou que o local reservado ao Pavilhão do Brasil fosse acessível, visível e se possível ao lado da Torre Eiffel. Como foi o único monarquista da América a participar, seu pedido foi recebido com muitas honras e prontamente aceito.

Para o visitante que vinha para exposição pelo lado do rio Sena e da Torre Eiffel (Quai Branly), o Pavilhão do Brasil se encontrava bem junto a 1° base da torre (pilar Oeste).

Brasil na Exposição Universal de 1889
Planta da localização do Pavilhão do Brasil na Exposição Universal de 1889, em Paris.

O pavilhão se encontrava cercado por um jardim de flores, bananeiras, palmeiras e orquídeas e um lago artificial, com vitórias-régias (grande sensação e curiosidade, por seu tamanho e o fato de poder suportar até uma criança pequena, sem se quebrar).

Fachada externa ornadas por rostros (antigas pontas de navio) bem salientes (entre o primeiro e o segundo andar), mísulas, modilhões, mascarão (cabeças) e brasões (armas) de províncias brasileiras pintadas sobre os pórticos completavam a decoração do edifício.

Brasil na Exposição Universal de 1889
Entrada principal do Pavilhão do Brasil, na Exposição Universal de 1889, em Paris.

Uma esfera armilar, símbolo do Império do Brasil, encimava o prédio, em um de seus ângulos, além da própria bandeira, hasteada sobre o campanário, da torre (minarete).

De todos os ornamentos externos do pavilhão, o destaque ficou com o conjunto de esculturas do artista francês Gilbert, com suas seis figuras de índios (com tipos físicos europeus), representando os principais rios brasileiros: Paraná, Amazonas, São Francisco, Paraíba, Tietê e Tocantins. Um maneira simbólica encontrada para representar a vastidão do território e suas vias naturais de comunicação.

Cada índio ou índia foram representados com dois atributos: A vegetação que representa as margens da sua região e um remo típico do local.

Na fachada principal virada para o Pavilhão da Argentina foram colocadas quatros esculturas, sendo duas em cada lado da porta principal. À direita, o rio Paraná, representado por um homem e o rio Amazonas, por uma mulher. À esquerda; o rio São Francisco (homem) e o Paraíba (mulher).

Na fachada lateral, (de frente para Torre Eiffel, ver foto baixo), temos uma escultura de cada lado da porta secundária, representado pelo rio Tietê (homem) e o Tocantins (mulher).

Brasil na Exposição Universal de 1889
Pavilhão do Brasil, na Exposição Universal de 1889, em Paris. Foto: ?

Os índios por serem casais, simbolizavam a fertilidade, a promessa de abundância e a integração do território. Todas as esculturas são figuras fortes, que expressavam dinamismo, energia, vitalidade e a juventude da população brasileira.

O famoso botânico francês, Auguste François Marie Glaziou (1828-1906), famoso por trabalhar nos jardins do Palácio Imperial de Petrópolis (Rio de Janeiro) cuidou do paisagismo e da estufa de plantas tropicais que decoraram o interior e o entorno do Pavilhão.

Brasil na Exposição Universal de 1889
Ilustração do Pavilhão do Brasil e estufa, na caixa de chocolates Debauve e Gallais.

Cercado por um jardim com flores e vegetações primorosas, bananeiras, palmeiras havia também uma estufa em forma circular contendo uma estátua de jacaré em cada lado da entrada.

Brasil na Exposição Universal de 1889
Pavilhão do Brasil, Exposição Universal de 1889, em Paris.

O pavimento térreo do Pavilhão do Brasil chamou muita atenção do público, pois expunha de forma bem didática, as principais riquezas naturais do Brasil em seu estado bruto e a fertilidade do solo.

Entrando pela porta principal (em face ao Pavilhão da Argentina), à esquerda encontravam-se longas bancadas de madeira com muitas amostras de grãos de café, e no lado oposto, amostras com tipos de madeiras da floresta amazônica. O próprio assoalho fazia parte da exposição, pois era todo em marchetaria de madeira.

No centro, uma vitrine com amostras de minerais provenientes de Minas Gerais. Cercado por minérios, madeiras, peles de animais, mármores, carvão de ferro e amostras da borracha.

Brasil na Exposição Universal de 1889
Pavilhão do Brasil, térreo, vitrina de Minas Gerias. Acervo: Museu Nacional (RJ).

Um átrio central possibilitava a visão dos balcões em gradis decorados dos dois andares superiores e da estrutura de ferro aparente do interior do pavilhão. Tudo iluminado por uma luz natural que entrava por uma claraboia instalada no alto do telhado.

As decorações dos painéis, colunas de ferro, frisos e medalhões sobre fundo de ouro com motivos florais, guirlandas e frutas brasileiras foram realizadas pelo artista francês Haber-Lippmann.

Os vitrais coloridos das janelas com temas do Brasil foram executados pelo mestre vidreiro francês, Louis-Charles-Marie Champigneulle (1853-1905).

Completando esse andar térreo, haviam vitrines com amostras de esponjas, cortiças, algodões brutos, mate, folhas de tabaco, fibras vegetais têxteis, cereais e outros produtos agrícolas.

Mas a maior atração foi a famosa réplica em madeira de carvalho do meteorito de Bendegó feita especialmente para a exposição, que atraiu muitos curiosos, estudantes, historiadores e profissionais em astronomia.

Meteorito Bendegó (5,4 toneladas). Museu Nacional do Rio de Janeiro.
Foto: Jorge Andrade.

Devido ao seu histórico, dificuldade de transporte e o fascínio dos cientistas e pesquisadores, após o término da Exposição Universal, a comissão brasileira deixou a réplica como presente para os franceses.

Inicialmente ficou exposta no Museu de História Natural de Paris e transferida em 1937, para um novo museu de ciências da época, chamado: “Palais de la Découverte” (Palácio da Descoberta).

Em 2018, o meteorito voltou para o Museu da História de Paris, pois entre dezembro de 2020 e a primavera 202i, o Palais de la Découverte ficará fechado para renovação.

O original escapou milagrosamente ao incêndio do Museu Nacional (Rio de Janeiro), em 02 de setembro de 2018.

No 1º andar estavam os produtos manufaturados e matérias-primas: tecidos, chapéus, sapatos, luvas, vidraçaria, velas, perfumaria, produtos em conserva, cerâmicas, licores, cacau, chocolates, instrumentos de música, plantas medicinais, entre outros artigos.

O 2º andar foi reservado para mostrar um Brasil intelectualizado, cientifico, letrado, moderno, culto e artístico, através de vitrines que expunham litografias, gravuras, livros, encadernações e objetos do cotidiano burguês, tais como mobiliário, vidros, cerâmicas, malas, valises, coleção de medalhas, insetos, redes de dormir..

Brasil na Exposição Universal de 1889
Pavilhão do Brasil, 2° andar. Exposição Universal de 1889, em Paris.
Acervo: Museu Nacional (RJ).

Os dois andares superiores demonstravam um Brasil mais industrializado e “civilizado”, uma grande sociedade em desenvolvimento pelo qual os visitantes não esperavam encontrar ou que fosse possível existir.

Por fim, saindo para o exterior, ao lado do pequeno lago tropical com suas vitórias-régias, se encontrava um quiosque de degustação com produtos tropicais, principalmente o cafezinho servido em lindas xícaras e pires decoradas nas suas bordas por frisos de ouro.

Xícara de café com pires com brasão do Império do Brasil. Exposição Universal de 1889. Foto: Casa de leilões “Dargent Antiguidades”, Campinas, São Paulo.

Uma ideia genial após os visitantes conhecerem os produtos do Pavilhão do Brasil.

Pires de café do Império do Brasil com texto em dourado: “Exposition 1889 Universalle”.
Foto: Casa de leilões “Dargent Antiguidades”, Campinas, São Paulo.

A área total reservada para participação do Brasil na Exposição Universal foi de 1.200 m², o que incluía o Pavilhão, os jardins do entorno, o pequeno lago com as plantas amazônicas e o quiosque de degustação.

Em 15 de novembro de 1889, quinze dias após o término da Exposição Universal, a Primeira República do Brasil (1889-1930) foi instaurada através de um golpe de Estado.

Dois dias depois, Dom Pedro II e família partiram para viveram no exílio em Paris, onde foram extremamente bem recebido, talvez em agradecimento ao monarca pelo seu papel fundamental na participação do Brasil na exposição de 1889.

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Fontes bibliográficas:

  • Artigo da arquiteta e professora, Margareth Campos da Silva Pereira para Revista Projeto, São Paulo, nº 139, p. 83-90, (1992) Tema: “A Participação do Brasil nas Exposições Universais”.
  • Tese de Doutorado de Regina Maria Macedo Costa Dantas. Tema: “Casa Inca ou Pavilhão da Amazônia?”
  • Site: National Gallery of Art, com o artigo: “Exposition Universelle de 1889”.
  • Site: Fundação Casa de Rui Barbosa.
  • Site: worldfairs.info com o artigo: Exposition Universelle de Paris 1889.
  • Site: “Dargent leilões de antiguidades” (Campinas, São Paulo).
  • Site: Paris Team Punk.

13 Comentários


  1. Parabéns pelo excelente comentário, nos fazendo conhecer mais uma rica história do nosso Brasil!
    Confesso que não sabia desses mínimos detalhes da exposição e não conhecia essas maravilhosas fotos!
    Mais um vez, muito agradecida! Vou compartilhar pois é muito rico em detalhes, gostaria que muitos brasileiros também pudessem desfrutar dessa sua explanação sobre o pavilhão do Brasil nessa exposição de Paris!

    Responder

    1. Oi Aquelina, fico feliz pelo seu simpático comentário, realmente falta muitas informações sobre a história do Brasil no mundo. Agradeço muito pelo compartilhamento do artigo nas redes sociais. Obrigado mesmo. Tom

      Responder

  2. Parabéns pela excelente matéria !
    Completíssima em informações e raras imagens !

    Responder

    1. Duplamente obrigado Carlos Alberto. Um pelo simpático comentário e dois pela observação do erro no texto, que já corrigi. Grande abraço. Tom

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  3. Parabéns mais uma vez Tom, artigo riquíssimo, um trabalho de pesquisa fenomenal . Muito obrigado por compartilhar.

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  4. Tom boa noite! Seu artigo foi muito bem elaborado, bem pesquisado e muito bem explicado . Abraço Lula.

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  5. Obrigada amigo Tom por esse artigo tão interessante!
    Abraços,
    Maria Angela

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  6. Que trabalho primoroso .Você é de uma competência inigualável……
    Orgunho de ser brasileira como voce. Vou reler muitas vezes .
    Muito obrigada .
    Abraços
    Neusa e Silvio Marques

    Responder

  7. Mais um artigo brilhantemente escrito por Tom Pavesi. Quanta riqueza em cada linha. Parabéns pelo belo relato dessa parte da história do Brasil praticamente desconhecida pelos brasileiros.

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    1. Mestre Rogerio!
      Como sei que é louco por história, saiba que a xícara e o pires foram vendidos num leilão em Campinas, sua terra, e minha de formação. Será que eles teriam algum outro objeto em exposição? Abraços!

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