O travesti espião no reinado de Luís XV

O travesti espião no reinado de Luís XV

Tempo de leitura: 14 minutos

Charles-Geneviève-Louis-Auguste-André-Timothée d’Éon de Beaumont ou simplesmente, Cavaleiro Charles d’Éon é o famoso travesti espião no reinado de Luís XV.

Escritor, diplomata, militar, agente secreto, espião na corte de Luís XV ficou conhecido como um dos mais enigmáticos personagens da história da França, pois viveu 33 anos como mulher e 49 anos como homem, durante seus 82 anos de vida.

Nasceu em Tonnere, em 05 outubro de 1728 na região da Borgonha e aos 21 anos, em 1749, seguindo a mesma carreira do pai se tornou advogado do Parlamento de Paris. Foi mestre em esgrima, hábil cavaleiro e talentoso escritor.

Depois de ter publicado o livro “Considérations Historiques et Politiques” foi nomeado censurista Real de História e Ciências Humanas, graças a seu amigo, Jean-Baptiste Berthier, engenheiro militar de Luís XV. Aproveitando-se da sua vivacidade e inteligência, se destaca escrevendo artigos em jornais, livros, conquistando vários admiradores da corte francesa.

Assim fez conhecimento da jovem viúva a condessa Marie de Rochefort, que o convida em 1755 para um baile de carnaval em Versalhes onde todo mundo se fantasia como bem entendesse.

Charles aproveitando-se de seu porte físico bem afeminado, imberbe, longas pernas, peitos avantajados se apresentou na festa com um lindo vestido decotado, forte maquiagem, colar de brilhantes, uma verdadeira mulher da alta nobreza.

Nesta noite encantadora de Versalhes, as duas mulheres se misturaram no meio de tantos outros convidados fantasiados procurando encontrar o rei Luís XV que todos sabiam estava cansado da sua amante, a marquesa Madame de Pompadour. As duas bem curiosas para descobrir quem seria a próxima preferida.

Mas foi o rei quem as encontrou. Logo interessado em conhecer a nova companhia de Marie de Rochefort.

Madame Geneviève

Apresentada como Madame Geneviève (ou Charles-Geneviève para os íntimos), o rei pediu a um amigo, Maximilien de Sainte-Foix, para avisá-la que gostaria de encontrá-la numa pequena sala secreta, ao lado do salão de festas.

Madame Geneviève uma hora depois veio ao encontro do rei, mas para sua surpresa quem entra no salão é a própria Madame de Pompadour que havia deixado pessoas de sua confiança seguindo-o para descobrir antes de qualquer um, quem seria sua substituta.

Louca de raiva e pronta para uma briga Madame de Pompadour foi recebida com um sufocado abraço e um forçado beijo na boca de Mademoiselle Geneviève / Charles d’Éon.

Toda desconcertada após descobrir a verdadeira natureza da moça, ela saiu da sala toda avermelhada com um sorriso no rosto pensando em voltar mais tarde e ver a cara de decepção de Luís XV quando descobrisse a mulher que lhe aguardava era na verdade um travesti.

O travesti espião no reinado de Luís XV
Desenho e gravura de J. B. Bradel (1779)

Algum tempo depois, o rei entra na sala pronto para conhecer mais intimamente sua bela escolhida da noite. Sem dar tempo para explicações ou protestações, o rei fogosamente saiu apalpando o corpo, os seios e tentando beija-la.

Quando passou a mão no sexo de Geneviève e notou algo de estranho foi que esfriou de vez. Ao mesmo tempo, Madame de Pompadour entrou na sala morrendo de rir. Todos se olham e caem na gargalhada.

O rei ainda não acreditando que foi tão bem enganado exige uma confirmação de Geneviève que responde com uma reverência oficial de um verdadeiro homem da corte, e finalmente se apresentando como: “Chevalier Charles-Geneviève d’Éon de Beaumont, à vos ordens”.

Ao mesmo tempo que ficou desconcertado com a resposta, Luís XV teve uma brilhante idéia onde poderia empregar os talentos d’Éon ao serviço da França.

Espião Lia na Rússia.

Assim sendo, foi recrutado para fazer parte de um organismo chamado “Secret du Roi” (Segredo do Rei) ou “Cabinet Noir”, (Gabinete Negro), uma rede de espionagem comandado pelo Príncipe de Conti.

Sua primeira missão foi na Rússia, em 1756, se passando como um falso secretário da embaixada Francesa deveria estudar a melhor maneira para se aproximar da Imperatriz Isabel da Rússia, e entregar-lhe um documento do rei Luís XV, estabelecendo uma Aliança entre os dois países França / Russia, e que iria contra os desejos da Prússia e Inglaterra.

Para esta missão, usou o falso nome de Lia de Beumont, (falsa irmã do cavaleiro, Charles d’Eon de Beumont). Se apresentou na corte Russa, como leitora oficial da Imperatriz. Ficaram amigas e confidentes. Durante toda sua estadia na Rússia sempre vestida de mulher participou de prestigiosos bailes.

A Imperatriz Isabel somente ficou sabendo que sua amiga era um homem, porque a própria Lia (ou Charles) de Beumont acabou confessando seu segredo. Achando a situação engraçada, dizem que a Imperatriz aproveitando da situação até que tentou seduzir agora o homem, Charles d’Éon. Mas, grande parte da corte russa, nunca souberem a verdadeira identidade de Lia.

Herói e capitão dos Dragões

De volta para França, em 1760, com o tratado de Aliança entre os dois países assinado foi recompensado pelo rei Luís XV como capitão de “Dragons”, (Cavalaria Militar).

Participou na “Guerra dos Sete Anos” e voltou ferido. Foi condecorado com honras militares e convidado novamente para vestir a capa de agente secreto. Pois com a morte da Imperatriz Isabel a sua sucessora Grande Catarina redigiu um novo tratado de Aliança com a Prússia anulando o anterior, e que agora ia contra as vontades do rei França.

Portanto para evitar uma possível guerra com a Russia, Luís XV precisava urgentemente de uma aliança com a Inglaterra. Para salvar a situação, Charles d’Éon foi enviado para Londres como um falso secretário da Embaixada Francesa para negociar termos do tratado de paz França e Inglaterra.

Espião embaixador de Londres

Algum tempo depois infiltrado na corte do rei inglês, Georges III conseguiu roubar documentos importantes que tratava desse aliança. Graças a estes documentos, a França melhorou o texto do tratado, assinado finalmente, em 10 de fevereiro de 1763.

Por este trabalho Charles d’Éon recebeu a mais rara distinção do século XVIII: a Ordem Real e Militar de São-Luís, ou “l’Ordre Royal et Militaire de Saint-Louis”.

Apos o roubo dos documentos, a organização “Secret du Roi” lhe enviou novamente para Londres com a missão de verificar e organizar as melhores condições para um desembarque das tropas francesas nas praias inglesas.

Viajou como sendo o novo embaixador provisório da França na Inglaterra. E ficou por lá aguardando o momento certo para que pudesse executar sua missão. Neste meio tempo levava uma vida de rei e muitas ostentações na Inglaterra. Festas exuberantes, empregados por todos os lados, muita opulência e gastança chegando ao conhecimento de Luís XV.

Confirmado que suas despesas eram altíssimas, o rei resolveu substituí-lo. Enviando então o Embaixador titular, o Conde de Guerchy, com a missão de cortar todos os excessos d’Éon.

A partir daí uma briga pessoal começou entre os dois embaixadores. Guerchy conseguiu convencer o rei Luís XV que d’Éon deveria retornar imediatamente para França, pois estava ameaçando revelar segredos de Estado para os ingleses, caso não recuperasse o cargo de Embaixador e ter de volta, seu alto salário e as regalias.

D’Éon, após sofrer um tentativa de assassinato e com um mandato de extradição para ser enviado para Bastilha em Paris, se escondeu por um longo período na casa de um amigo travestido de mulher.

Travesti famoso em Londres

Aproveitando o tempo e precisando sobreviver escreveu um livro de quatrocentas páginas sobre sua história. Com a 1° edição esgotada se tornou uma personalidade popular e muito conhecido na Inglaterra.

Muitas entrevistas em jornais, sempre vestido de mulher conseguiu o apoio do povo Inglês. O tempo passou e o dinheiro acabou.

Devendo muitas pessoas, d’Éon ameaçou seriamente Luís XV a revelar o plano de invasão dos franceses nas costas inglesas.

Embaixador espião em Londres

Acabou ganhando na justiça em 1767, o processo na qual ficou provado que o conde de Guerchy tentou envenená-lo. Agora apoiado pelo rei e com a promessa de cooperar com a França, não revelando os segredos voltou a seu cargo de Embaixador, (e espião), com um justo salário.

Embaixador ou Embaixadora, pois d’Éon se recusou a se vestir de homem. Palpites, apostas altas em relação ao seu sexo são jogadas em toda Inglaterra. A França ridiculizada por países da Europa envia em março de 1771 um pessoa para verificar pessoalmente o sexo de d’Éon.

Jogando o jogo para não ser esquecido, e continuar ser falado na corte francesa deixou-se ser apalpado. De volta a França o enviado do rei Luís XV confirma para todos que o embaixador Francês, da Inglaterra era uma mulher.

Charles d’Éon obrigado a ser mulher

Em 1773, o rei Luís XV ordena a d’Éon para nunca mais se vestir como homem, e de agora em diante somente como mulher. Após a morte do rei em 1774 recebeu sua última missão de recuperar (roubar), o livro de Memórias de Madame du Barry, do autor Théveneau de Morande, que contava escandalosamente detalhes íntimos do falecido rei com a sua última preferida.

Não conseguindo d’Éon teve que negociar um preço com Théveneau, mas foi um outro espião da corte, o escritor, filósofo e dramaturgo, Caron de Beaumarchais quem acabou comprando e destruindo o temido livro de memórias em 1775.

Ano que acabou sendo extinta a organização “Secret du Roi” , e os serviços do espião d’Éon.

Mademoiselle d’Éon de volta a França

Em 1777, “Mademoiselle d’Éon”, como a chamavam e ainda morando na Inglaterra, sem emprego, sem salário e com muitas dívidas recebeu um convite inusitado do novo rei da França, Luís XVI, para que retornasse quando desejasse.

O travesti espião no reinado de Luís XV
Mademoiselle de Beaumont ou The Chevalier D’Eon.

Porém, em troca de uma confortável moradia e uma bela gratificação de 12.000 Libras, pelos serviços prestados teria que devolver todos documentos secretos roubados durante sua permanência na Rússia e na Inglaterra que ainda guardava. D’Éon a princípio aceitou pensando negociar pessoalmente com o rei.

Chegando em Versalhes vestido com o uniforme dos Cavaleiros dos Dragões (cavalaria montada), apresentou-se ao rei, com todas as anotações despesas que acumulou desde a Rússia até naquele momento. Exigia receber um total de 318.000 libras.

Dama da corte de Maria Antonieta

Ao mesmo tempo pediu que o liberasse da obrigação imposta por Luís XV de se vestir como mulher. O rei Luís XVI e ministros recusaram qualquer negociação monetária e o condena a viver o resto da sua vida na corte ao lado das mulheres, a serviço da rainha Maria Antonieta que lhe doa 24.000 libras para refazer seu guarda-roupas, sem direito de portar, armas, de participar da política e da diplomacia francesa.

A partir deste momento d’Éon ficou muito famoso(a) e conhecido(a) na França.  A estrela das festas de Versalhes. Sempre bem vestida como mulher chamou atenção de muitos homens que não conheciam sua história.

De barba malfeita que se via sobre a maquiagem, pernas peludas e braços musculosos foi motivo de muito divertimento para toda corte. Sendo sempre convidada para as melhores festas tornou-se com o tempo uma verdadeira dama da corte.

A desonra do soldado por Luís XVI

Em 1779, o Cavaleiro d’Éon se apresentou ao rei como soldado da companhia dos Dragões, e voluntário para participar da guerra da independência do Estados. Mas o rei Luís XVI não achando graça da proposta lhe enviou para um convento em Auxerre, e depois para uma prisão em Dijon, sempre vestido de mulher.

Finalmente liberado foi viver em sua propriedade em Tonnerre, na Borgonha, e proibido de sair para morar em qualquer outra lugar da França.

Livre e perdoado para voltar a Londres

Em 1783, já quase esquecido por todos, o rei Luís XVI acabou lhe perdoando e autorizando a morar em Paris. Dois anos depois conseguiu um passaporte para ir a Londres buscar sua valiosa coleção de 6.000 livros que havia deixado no seu antigo apartamento londrino.

Pensava na verdade recuperar além dos livros outros documentos secretos que havia escondido em caso de necessidades e tentar fazer um bom dinheiro com algum país interessado.

Visto que na Inglaterra foi bem acolhido pelos jornais, imprensa e amigos resolveu não mais voltar para França.

Duelos de esgrima travestido para sobreviver

O travesti espião no reinado de Luís XV
Duelo de esgrima entre “Monsieur de Saint-George et Mademoiselle la chevalière d’Éon de Beaumont “, em Carlton House, em 9 abril de 1787. Gravura de Victor Marie Picot baseado na obra original de Alexandre-Auguste Robineau.

Para sua sobrevivência em troca de um salário razoável faz representações em duelos de esgrima, vestido de mulher, contra homens e cavaleiros da corte inglesa.

Chegando de ter a honra de esgrimir e ganhar o combate contra o Príncipe de Galles, e o famoso e esgrimista, o Cavaleiro Saint-Georges.

Vendeu sua biblioteca de livros em 1791 e no mesmo ano, sua casa em Tonnerre, na França foi invadida e vasculhada por guardas do rei que encontram nove caixas de papéis secretos e cartas seladas com cera vermelha do falecido rei Luís XV.

Travesti ferido e paralisado

Em 1796, ao 68 anos ainda combatendo em esgrima foi gravemente ferido nos pulmões ficando entre a vida e a morte por 4 meses.

Em 1804 foi preso por não pagamento de dívidas mas liberado cinco meses depois com ajuda de um padre francês.

Pensou em escrever um livro autobiográfico para pode sobreviver mas sofreu um AVC deixando-o paralisado.

Triste fim do travesti espião no reinado de Luis XV

Vendeu então a última coisa que lhe restava de valor, a Cruz de Saint-Louis, ornada de diamantes e uma tabaqueira de ouro, presentes que havia sido oferecidos por Luís XV pela sucesso de suas missões quando espiã(o).

Em 21 de maio de 1810, vivendo às custas na casa de uma amiga inglesa, Sra. Cole acabou morrendo dormindo. Foi sepultado no antigo cemitério da Paróquia “Saint-Pancrace”, no condado de Middlesex, (atual Londres).

Após uma autopsia pelo Doutor Copelande, e uma junta médica da Universidade de Medicina da Grã-Bretanha foi declarado como sendo um verdadeiro homem sobre todos os ângulos.

Par la présente, je certifie que j’ai examiné et disséqué le corps du chevalier d’Éon en présence de M. Adair, de M. Wilson, du père Élysée et que j’ai trouvé sur ce corps les organes mâles de la génération parfaitement formés sous tous les rapports.

Certifico que examinei e dissequei o corpo do “Chevalier d’Eon”, na presença do Sr. Adair, do Sr. Wilson, do Padre Élysée e que encontrei neste corpo os órgãos masculinos da geração perfeitamente formados em todos os sentidos.

Do seu nome EON surgiu o termo, EONISMO que significa :

“Homem que se veste com roupas do sexo oposto com maneiras femininas” ou sinônimo de travestismo masculino”.

Fonte: “Mémoires sur la chevalière d’Eon”, por Frédéric Gaillardet.

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3 Comentários


  1. Uma história de extraordinária e aventureira, não conhecia. Adorei “ser apresentada” ao cavalheiro/dama ou à dama/cavalheiro. Parabéns pela postagem!!

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  2. boa noite Tom

    Fiquei encantada com essa materia……que trajetoria de vida nao ????
    Super interessante .
    Obrigada por nos brindar com esses artigos lindamente bem escritos.
    Neusa Marques

    Responder

    1. Realmente Neusa, a história desse espião/travesti d’Eon daria um filme. Não sei como ainda não fizerem um. Obrigado e aguarde os próximos artigos. Abs, Tom

      Responder

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