Do estilo Pós-Revolução Francesa a Luís Filipe

Do estilo Pós-Revolução Francesa a Luís Filipe

Tempo de leitura: 13 minutos

Do estilo Pós-Revolução Francesa a Luís Filipe. Esse é o 2° artigo, em ordem cronológica, que venho escrevendo sobre as fachadas nos edifícios em Paris.

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Ao estudar esses artigos você poderá mostrar todo o seu conhecimento, (seja para quem for), que você é um especialista em reconhecimento de fachadas de Paris. 

Estilo Pós-Revolução Francesa (1790-1800).

Após o fim da monarquia absoluta de Luís XVI (1774-1792), durante os vários regimes políticos e formas de governo distintos, que estiveram no poder entre 1790 – 1800, por meio de golpes de estado, uma forte tensão e terrível clima de insegurança e medo, eclodiu em todo o país.

Especialmente Paris que acabou sofrendo com a pós-revolução, uma grande desordem urbana, e no estilo das fachadas que estavam em construção pela cidade.

Nessa situação caótica e de crise financeira, as fachadas dos edifícios de pedra talhada, são limpas de decorações, lisas e nuas. Ainda baseadas na arquitetura clássica do estilo Luís XVI, com alguns complementos que veremos a seguir, anunciando o futuro estilo neoclássico.

Talvez por serem semelhantes, não são nada fáceis de diferenciá-los.

Rua Mandar, 75002, Paris 1792.

Uma grande extensão da Rue Mandar, no 2° arrondissement (distrito), era para ser o protótipo de uma cidade uniforme, igualitária e perfeita para os homens. Uma construção idealizada para um projeto revolucionário. Mas o que vemos é apenas uma repetição do estilo Luís XVI, com uma única novidade, a uniformidade presente nos vários edifícios.

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Rue Mandar, 75002, Paris. Edifícios uniformes.

2 – 4 Rue de la Chaussée-d’Antin, 75002, Paris 1792-1793.

Localizado na esquina do Bulevarde “des Italiens”, este edifício é um dos poucos que foram construídos em Paris durante a Revolução Francesa, 1792-1793. Época nada propício para transações imobiliárias.

A grande característica deste estilo que podemos notar nas fachadas nos dois edifícios é a pureza das duas fachadas, desprovidas de ornamentações e decorações de ordens gregas, como no estilo anterior. Agora a parede é em pedra talhada, nua e crua.

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2 – 4 Rue de la Chaussée-d’Antin, 75002, Paris.

6 Rue Saint-Florentin, 75008, Paris 1800.

Ao contrário das características do edifício acima, encontramos também fachadas altamente poluídas em ornamentações, com esse do n° 6 Rue Saint-Florentin (8° arrond.), sobrecarregadas de apliques de cerâmicas imitando tijolos, colunas gregas (dóricas, jônicas e coríntios) no terraço do último andar, janelas , consoles repetitivos nos balcões, terraços, e beirais, janelas do caimento do telhado, com imponentes frontões triangulares deixando o edifício pesado, pomposo, e feio (ou bonito, conforme do gosto de quem observa).

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6 Rue Saint-Florentin, 75008, Paris.

2 Place du Caire, 75002, Paris 1799.

Após as campanhas militares em 1797-1799, por Napoleão Bonaparte, começaram aparecer nas fachadas, todo um panteão de deuses egípcios como vemos na praça “du Caire”, e suas cabeças de “Hathor”, frisos decorados de hieróglifos sem significados. Andares superiores com decorações neogóticos, típico dos futuros edifícios de 1850. Tudo junto e misturado.

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2 Place du Caire, 75002, Paris.

Estilo Império ou Napoleônico (1800-1815).

Com o Código Civil promulgado em 1804, o período revolucionário terminou. Napoleão Bonaparte após se auto coroar Imperador da França, na Catedral de Notre-Dame de Paris, em 02 de dezembro de 1804, (ler artigo), conseguiu através de seus ministros, controlar os despesas do Estado, mas ao impôr uma ditadura com uma sequências de guerras, impediu uma real prosperidade do país.

O que refletiu consequentemente no estilo das novas construções neste período.

Os edifícios são mais maciços, mais imponentes e o estilo arquitetônico bem clássico. O efeito de horizontalidade é acentuado por varandas contínuas, com guarda-corpo de ferro forjada, de ferro maciço ou por bandas de separação dos andares . As ornamentações na fachadas também se encontram mais estão mais presentes.

79 Rue du Bac, 75007, Paris 1806.

Enquanto houve o empobrecimento das classes populares e sua exclusão para a periferias de Paris, a classe burguesa se enriqueceu, continuando a construir edifícios num ritmo lento, mas de forma mais rica, elegante e inovadora. Ou seja com características mais fáceis de serem reconhecidas.

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9 Rue du Bac, 75007, Paris.

No 4° andar, a varanda (terraço) contínua, as janelas são simples e sem ornamentações (andar mais popular pois era necessário chegar pelas escadas, na época não haviam elevador)

No 1° andar, onde a varanda contínuo, as portas-janelas são enquadradas por ornamentos a meio-círculos (andar mais caro, pois era próximo ao térreo).

Lucarnas no telhado, na mesma linha vertical da fachada.

Pórticos de entrada (em meio-circulo), com puxadores decorados por cabeças de leão, painéis de madeira, repartidos em módulos e altos-relevos, e formas geométricas.

Imóvel mais é pesado, definido por ornamentações e decorações imponentes.

4 Rue d’Aboukir, 75002, Paris.

Uma característica primordial para se reconhecer uma fachada deste período, esta bem presente neste edifício 4 rue d’Aboukir. É só notar na janela do 1° andar, as janelas em semi-circulo, ornamentadas por colunas gregas de ordem Jônicas e nichos nas paredes com estátuas e nichos vazios, somente para completar e decorar o largo espaço da fachada.

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4 Rue d’Aboukir, 75002, Paris.

Rue de Rivoli, 75001, Paris 1802-1835

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Rue de Rivoli, 75001, Paris. Entre a Praça do Palais Royal e a Concórdia.

É sem dúvida a rua que melhor representa o estilo Império, uma vez que foi criada após uma expropriação em 1802, de propriedades e comércios particulares, como congregações religiosas, permitiu a criação de uma via expressa cortando Paris de leste a oeste, e assim desobstruir a importante rua paralela, Saint Honore e outras adjacentes.

Mas como foram tantas as dificuldades encontradas pelos investidores e construtores, por causa da novas regulamentações urbanas e os vários processos contra as desapropriações, que a grande parte dos edifícios construídos, só foram praticamente finalizadas em 1835.

Essa horizontalidade, típico do estilo Império ou Napoleônico, é ampliada pela largura dos edifícios que vão continuamente de uma rua a outra, mas também pelas três varandas contínuos presentes; piso nobre (1° andar), acima da cornija, no 3° andar e nas lucarnas na inclinação do telhado.

A falta de uma beleza arquitetônica, o conjunto fica ordenado severamente por uma rigorosidade geométrica, frio, sem alma e repetitivos, mas equilibrado de forma funcional.

Numeração dos edifícios nas ruas de Paris, de 1805 até hoje:

Até 1805 os edifícios parisienses eram designadas pelo nome do proprietário ou por placas que determinava o tipo de comércio. Mas a nova legislação urbana do Império Napoleônico, essa forma de identificação foi extinta, agora os edifícios são identificados por números, segundo uma ordem especifica. E é assim até hoje.

Regras para numeração das ruas de Paris.

As ruas paralelas ao rio Sena, a numeração é de ordem crescente, no sentido da correnteza do rio, ou seja da nascente (a leste), ao mar (a oeste de Paris).

Enquanto que nas ruas perpendiculares, a numeração inicia-se a partir da margem do rio Sena, subindo ou descendo, conforme o início da rua. Em ordem crescente, onde os números pares estão a direita, e os números ímpares, a esquerda.

Estilo Restauração (1815-1830).

Em 1815, após a derrota de Napoleão na batalha de Waterloo, causando sua abdicação do trono francês, e exílio para ilha de Santa Helena, resultou restauração da monarquia ao poder, com os reis, Luís XVIII (1814/1815-1824) e Carlos X (1824-1830), irmãos de Luís XVI (1774-1792), que havia sido guilhotinado na Praça da Concórdia, em 1793.

Neste contexto histórico, o luxo, nas novas construções parisienses sumiram, pois aqueles que admiravam o imperialismo de Napoleão se calaram ou fugiram do país, com medo de represálias. Enquanto que a alta nobreza, que apoiavam a volta da monarquia, preferiram a discrição, sem ostentações de riquezas e de bens.

A diminuição na construção de edifícios de luxo favorecerá a construção de habitações populares e simples.

Os novos projetos mudaram completamente o estilo das fachadas, que se tornaram mais simples. O revestimento com a pedra talhada tornou-se rara, o que vemos é uma explosão de fachadas revestidas em cimentado liso, rugoso ou em placas de gesso, (material barato e fácil de se trabalhar).

Como exemplo, existem dois edifícios situados no n° 8 e 10 rue de Buci, no bairro de Saint-Germain-des-Prés, que são bem característicos desta época.

8 e 10 Rue de Buci, 75006, Paris.

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8 e 10 Rue de Buci, 75006, Paris.

A decoração principal da fachada são as persianas de madeira das janelas, que quando abertas preenchem os espaços externos, antes decorados por diversos ornamentos ou por alguma ordem clássica grega (colunas; dóricas jônicas ou coríntias).

64 Rue Notre-Dame-de-Lorette, 75009, Paris.

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64 Rue Notre-Dame-de-Lorette, 75009, Paris.

Edifícios crus, sem os custosos revestimentos em pedra talhada, somente um cimentado liso de cinza claro ou escuro, bandas de separação de anadares e janelas com persianas.

69 Rue Doudeuville, 75018, Paris.

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69 Rue Doudeuville, 75018, Paris

Existem também em alguns edifícios modestos e populares, janelas sem nenhuma tipo de moldura decorativa, e sem as persianas de madeira. Somente uma abertura retangular simples na fachada cimentada ou em gesso.

7 Place Franz-Liszt, 75010, Paris

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7, Place Franz-Liszt, 75010, Paris

No térreo, as janelas tem formas de arcadas, e no 1° andar nobre, uma varanda (balcão) contínua, com janelas molduradas por frontões triangulares, e um 3° andar com uma varanda contínua, mas com janelas de persianas simples.

Em alguns imóveis mais luxuosos a abertura da janela é decorada por uma chambrana (moldura) de pedra, gesso ou madeira, e algumas decoradas protegidas por um “dais” (estrutura de gesso, pedra ou gesso que cobre a abertura da janela), em forma triangular ou não.

As janelas do último andar continuam enfileiradas por uma única varanda e um único gradil de ferro, e são separadas do andar inferior por uma cornija decorada, (como no estilo napoleônico).

O telhado tem uma inclinação a 45°. Conhecidas popularmente por telhado “Mansarda”, nome do arquiteto francês, que utilizou pela 1° numa construção, François Mansart, (1598-1666).

Um última caraterística é que nos edifícios mais luxuosos deste período, que encontramos na parede da fachada, reentrâncias (nichos) decoradas com esculturas de personagens da mitologia grega, romana ou da vida comum do homem comum.

Estilo Luís Filipe ou Romântico (1830-1848).

O rei Luís Filipe (1830-1848) de Orleans, somente chegou a poder graças à fracassada insurreição de seu primo, o rei Carlos X (1834-1830), que na tentativa da restauração do regime absolutista perdeu a batalha contra a população revoltada contra essa possível volta da Monarquia centralizadora. Revolução conhecido como “As Três Gloriosas”, 27, 28 e 29 de julho de 1830, resultando a sua abdicação ao trono.

Após um período de seis anos de instabilidade, de 1836 até 1848, Paris passou por momentos de paz, conciliações, e muita criatividade dos arquitetos, escultures e decoradores que estamparam sua arte nas fachadas dos edifícios.

Nos primeiros anos os edifícios continuaram a repetir o estilo da Restauração, e não são fáceis de serem datados, mas conforme a economia foi se estabilizando houve uma clara ruptura com esse passado “Clássico e pobre”, para um período cheios de novidades.

O estilo romântico virou moda!

23 Rue d’Hauteville, 75010, Paris 1840.

Surgiram nas fachadas em pedra talhada, uma fusão de estilos de tudo que já se conhecia. O que estável virou movimento, a ordem virou desordem, o clássico virou barroco romântico, a pureza virou riqueza, tudo exageradamente ornamentada por frisos, consoles, janelas com molduras forçosamente decoradas, e ricas bandas (linhas de separação entre andares) trabalhadas.

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23 Rue d’Hauteville, 75010, Paris.

19 Rue Rambuteau, 75004, Paris 1839.

Foi nesse período que apareceram também as persianas em ferro, dobráveis no espaço da abertura da janela. Liberando a leitura decorativa das fachadas e o surgimento de pequenos balcões individuais (em balanço).

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19 Rue Rambuteau, 75004, Paris.

Rambuteau, Prefeito de Paris e das transformações urbanas.

Entre 1833 a 1848 o prefeito de Paris, Rambuteau, (Claude-Philibert Barthelot, conde Rambuteau) teve que tomar uma série de providencias para controlar a superpopulação do centro de Paris (800.000 pessoas), o congestionamento de carruagens, charretes e ônibus puxados por cavalos (50.000 cavalos na cidade), epidemias por falta saneamento básico (cólera em 1831, e 1849), que o obrigou que arquiteto e engenheiros realizassem um novo projeto urbano (diretor) para a cidade.

A transformação da nova paisagem parisiense teve como consequências uma série desapropriações de apartamentos, e o deslocamento de uma população de baixa renda para os subúrbios de Paris.

Possibilitando assim o alargamento de ruas, bulevares e avenidas para construção das redes de esgoto, redes de água potável (alimentando por fontes em praças, ruas e avenidas), e uma importante rede de energia elétrica subterrânea.

Muitos edifícios tiveram suas fachadas inteiramente destruídas para serem reconstruídas com um recuo de 2 a 3 metros, em cada lado da calçada ou nos dois lados, como foi na Rue Rambuteau.

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Interessado em visitar Paris e conhecer alguns dos seus segredos? Então entre em contato comigo clicando no botão abaixo. Até breve! Tom Pavesi.

Fontes:

  • “Les Styles de l’architecture et du mobilier” – C. Renault e C. Lazé.
  • “Histoire de l’architeture à Paris” – G. Poisson.
  • “Façades de Paris” – Jean-Marc Larbordière. 
  • “Comment reconnaître les Styles en Architecture” – Wilfried Koch.
  • “Dictionnaire d’Architecture” – Mathilde Lavenu et Victorine Mataouchek

Imagens: Google Maps, Wikimedia Commons .

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