O golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta

O golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta

Tempo de leitura: 14 minutos

A protagonista principal do golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta e nos joalheiros, Paul Bassange e Charles Auguste Böhmer chama-se; Jeanne de Valois-Saint-Rémy (1756-1791) ou condessa de la Motte ou La Motte-Valois.

Na França o caso ficou conhecido: “L’ Affaire du collier de la reine”.

Depois de ter passado um infância triste e miserável, Jeanne de Valois-Saint-Rémy recebeu o título de condessa após provar ao rei Luis XVI (1774-1792) que era de origem real. Seu pai Jacques de Valois Saint-Rémy (1599-1621) era filho de Henri de Valois Saint-Rémy (1557-1621), filho bastardo de Henrique II (1547-1559) com Nicole de Savigny (1535-1590). Lembrando que Henrique II na época era casado, com Catarina de Médici (1519-1589) e já tinha como amante Diana de Poitiers (1500-1566). Clique aqui para ler outro artigo.

O golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta
Jeanne de Valois-Saint-Rémy (1780), por Élisabeth L. Vigée-Le Brun.

Foi educada em um convento para jovens filhas de nobres, casando-se em 1780, com Marc-Antoine Nicolas de La Motte (1755-1831), oficial militar, guarda e segurança do 3° irmão do rei Luís XVI, e futuro rei frança, Carlos X (1824-1830). Como fazia parte da nobreza foi admitida a frequentar a corte de Versalhes com o falso título de condessa La Motte-Valois. Falso porque Nicolas de La Motte (1755-1831), como era chamado, nunca foi conde.

História do golpe:

A história do golpe começa em 1772, quando rei Luís XV (1715-1774) querendo presentear sua última amante, Jeanne Bécu, conhecida como Madame du Barry (1743-1793), contratou os melhores joalheiros da França, Bassange e Böhmer, para desenharem um colar excepcional, único, feito com as melhores diamantes do mercado.

O golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta
Desenho Colar de diamantes, por Böhmer e Bassange.

Mas devido ao longo tempo que tiveram para reunir as pedras e a montar, Luís XV acabou morrendo em 1774, sem ver o resultado final e sem pagar pelo maravilhoso colar de 540 diamantes de 2.840 quilates.

Böhmer e Bassange endividados pois investiram tudo que tinham na confecção do colar, tentaram a todo custo vender para o novo rei da França, Luís XVI (774-1792), a um preço extraordinário para época, 1 milhões e 600 mil de libras , atuais, 7 milhões de euros. Mas a rainha Maria Antonieta (1774-1792) sabendo da intenção do seu marido em presenteá-la, recusou por três importantes motivos:

1° – Devido ao alto custo, que daria para comprar 3 navios de guerra.

2° – O país estava afundado numa crise econômica e conflitos políticos, e essa compra poderia prejudicar ainda mais imagem do novo rei e da França.

3° – Nunca usaria esse colar montado para Madame du Barry, ex-garota de programa para nobres, amante de Luís XV, e sua inimiga confessa na corte francesa.

Os inimigos de Maria Antonieta:

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Retrato de “Marie-Antoinette à la rose” (1783), de
Élisabeth Vigée Le Brun.

Maria Antonieta guardava uma ódio mortal do cardeal Louis de Rohan (1734-1179), desde a época em que ele foi embaixador de Estrasburgo em 1773, por ter escrito uma carta ao rei Luís XV (1715-1774), delatando um plano da sua mãe, a imperatriz da Áustria, Maria Tereza (1745-1765) para invasão a Polônia, (país aliado) com ajuda da Prússia e a Rússia (países inimigos da França).

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Louis René Édouard, cardial de Rohan, século XVIII, pintor desconhecido.

Carta essa interceptada e entregue nas mãos da Madame du Barry, amante do rei, que na intenção de ofender e humilhar a futura rainha Maria Antonieta, leu em voz alta num jantar entre nobres em Versalhes, acusando-a de inimiga da nação.

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Madame du Barry (1782), por Élisabeth L. Vigée-Le Brun.

A vingança de Maria Antonieta, só surgiu mesmo em 1774, quando realmente se tornou rainha, expulsando os dois de frequentarem a corte de Versalhes, enquanto fosse viva.

1° Parte do golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta:

Em 1783, a condessa La Motte-Valois foi convidada para uma viagem a Saverne, cidade na Alsácia, onde morava o Cardeal Louis de Rohan, novo Bispo de Estrasburgo e dono de uma grande fortuna, herdada da família, mas ainda muito aborrecido em não poder participar da corte em Versalhes por ordens de Maria Antonieta.

Sabendo dessa desavença com a rainha, e planejando o golpe do colar de diamantes, a condessa La Motte-Valois tornou-se rapidamente amante e confidente do bispo.

Com o tempo conseguiu convencê-lo que tinha uma relação íntima e amorosa com Maria Antonieta, e que poderia ajudá-lo na reconciliação entre eles.

Na trama para o golpe, entrou como cúmplice Louis Marc Antoine Armand Gabriel Rétaux de Villette (1754-1797), brilhante falsário, amante de La Motte-Valois, e amigo do marido Nicolas de La Motte.

Armand Gabriel Rétaux de Villette (1759-1797).

Como um bom falsificador escreveu várias cartas ao ingênuo, Cardeal de Rohan, assinando como se fosse a própria rainha Maria Antonieta, dizendo que aceitava a reconciliação mas que em troca desta nova aliança e como prova de fidelidade e amizade precisava que ele emprestasse uma certa quantia em dinheiro para ajudar a financiar algumas obras de caridade, pois devido à crise econômica em que a França se encontrava, não recebia mais ajuda de Luís XVI.

O golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta
Cena do filme francês “Le Collier de la Reine”, 1930, com Jean Veber (l. Marc Rétaux de Villette) e Marcelle Jeffersonn-Cohn (condessa La Motte-Valois).

O cardeal de Rohan irradiante com a notícia e feliz que finalmente chegou o seu momento de glória e de poder voltar para Versalhes, sem pensar muito, entregou uma grande soma para a condessa La Motte-Valois, para ajudar a rainha, como agradecimento e confiança para com ele.

A condessa vendo a facilidade que foi retirar dinheiro do tolo homem, continuou a farsa por mais alguns meses até que o cardeal de Rohan exigiu um encontro pessoal com a rainha, no Castelo de Versalhes, para ter certeza que realmente estava perdoado como ela dizia nas cartas.

2° Parte do golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta:

Portanto dando continuidade ao plano, outros personagens também entraram em cena, o conde de Cagliostro, Giuseppe Balsamo (1743-1795) charlatão italiano que se passava por mago, amigo pessoal e confidente do cardeal Louis de Rohan, e o próprio marido da condessa Nicolas la Motte (1755-1831) todos cúmplices e associados para extorquir mais dinheiro do infeliz cardeal.

Nicolas la Motte contratou uma prostituta muito parecida com Maria Antonieta, chamada Nicole Leguay apresentada na corte como baronesa Nicole d’Oliva, que em troca de uma boa soma em dinheiro aceitou se passar pela rainha Maria Antonieta, nos jardins de Versalhes para enganar um misterioso pretendente que faria lindas declamações de amor.

Foi enganada também pois não sabia nada sobre o plano contra o cardeal.

Nicole Leguay ou baronesa Nicole d’Oliva.

Tudo bem orquestrado, o encontro foi marcado com o cardeal Rohan para a noite do dia 11 de agosto de 1784. E como o local estava mal iluminado, (fazia parte do plano), o cardeal nem percebeu que estava se encontrando com a falsa rainha, que aliás estava impecavelmente bem vestida.

Excitado e feliz pela ocasião, após trocar algumas palavras e receber de volta uma rosa, como gesto de amizade e reconciliação, teve o encontro encerrado pela condessa La Motte- Valois que apressadamente deu uma falsa desculpa dizendo que as cunhadas do rei Luís XVI, se aproximavam deles, e que não poderiam serem vistos juntos.

O cardeal Rohan voltou para Alsácia certo que se encontrou com a verdadeira Maria Antonieta e que agora em diante estava perdoado.

O golpe em ação:

Com o cardeal em suas mãos , a condessa La Motte-Valois começou então os preparativos para aplicar o maior golpe da história do século XVIII, o roubo do colar de diamantes dos joalheiros Bassange e Böhmer, convencidos após muita conversa pela condessa la Motte-Valois, que a rainha Maria Antonieta estava disposta em adquirir o colar secretamente, sem chamar atenção dos nobres da corte e do país, que passava por sérias dificuldades financeiras.

O golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta
Joalheiros Bassange. e Böhmer.

Foi então combinado com os dois joalheiros, que Maria Antonieta pagaria indiretamente pelo colar, em 4 parcelas de 400 mil libras durante dois anos, e que o contrato de venda, seria assinado pelo cardeal Louis de Rohan, pois o nome dela não poderia aparecer de forma alguma como a verdadeira compradora. E em caso de não pagamentos de alguma ou de todas as parcelas estipuladas no contrato, o cardeal assumiria a dívida e faria o pagamento com recursos próprios.

Sem ainda ele saber, o cardeal foi usado como garantia dos pagamentos e do compromisso assumido, em nome da rainha.

Além do contrato para ser assinado pelo cardeal de Rohan, a condessa la Motte-Valois também trouxe de Paris, uma perfumada carta assinada, “Marie- Antoniete de France”, (escrita pelo falsário, Rétaux de Villette), implorando para que ele a representasse na compra do famoso colar, onde pedia gentilmente em nome da amizade restaurada, que ele assinasse as promissórias das parcelas de pagamentos, e que concordasse com todas as cláusulas do contrato, em caso de não pagamento.

O golpe final:

Devido à alta soma que estava envolvido, o cardeal pediu então ao seu amigo, mago, médium, Cagliostro, (Giuseppe Balsamo), de organizar uma mesa espírita para decidir o que fazer.

O golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta
Cagliostro fazendo alquimia com o cardeal de Rohan. BIU Santé. Paris.

Usando uma criança (contratada) incorporada por um espírito, diz ao cardeal para que aceitasse o pedido da rainha, pois com amizade e influência dela, muito em breve seria promovido a 1° ministro do rei Luis XVI.  Era o que faltava para assinar o contrato.

Em 01 de fevereiro de 1785, os joalheiros Böhmer e Bassange receberam o contrato assinado, e bem felizes com a negociação pediram para um emissário de confiança, que entregasse diretamente o colar de diamantes, nas mãos do cardeal.

O golpe do colar de diamantes na rainha Maria Antonieta
Réplica em zircônio, do colar de diamantes, exposta no Castelo de Breteuil, a 20 km de Versalhes.

Ao receber do emissário, o cardeal Louis de Rohan imediatamente levou o colar pessoalmente a condessa La Motte-Valois que naquele momento morava num apartamento alugado em Versalhes para que ela entregasse a rainha.

Seguindo o plano traçado com antecedência, convenceu o cardeal que seria melhor que o colar fosse entregue por uma pessoa de confiança máxima da rainha. Chamou então para essa missão, seu cúmplice, Rétaux de Villette, que surgiu fantasiado como “Valet de Chambre” de Maria Antonieta (empregado pessoal).

O desmonte:

No dia seguinte o colar foi todo desmontado, e os diamantes divididos entre ela e os três cúmplices: o amante Rétaux de Villette, o marido Nicolas La Motte, e o mago e médium, Cagliostro (Guiseppe Basamo).

Na pressa e devido a preciosidade dos diamantes que criava desconfiança e dúvidas quanto a origem das pedras aos futuros compradores, cada um vendeu sua parte bem abaixo do preço real do mercado para joalheiros de Londres e Bruxelas.

Seis meses depois, o cardeal Rohan sem notícias da sua doce rainha Maria Antonieta  preocupado com a aproximação do pagamento da 1° parcela marcada para 01 de agosto de 1785 recebeu a condessa Motte-Valois explicando na maior tranquilidade que a rainha se desculpava mas dificilmente conseguiria a soma de 400.000 libras, e que ele, como representante legal deveria assumir o pagamento desta parcela, até que a rainha  pudesse reembolsá-lo.

Os dois joalheiros Bassange e Böhmer avertidos pela condessa Motte-Valois da dificuldade que se encontrava Maria Antonieta em a fazer o 1° pagamento, e também pelo fato de ainda não terem visto ela usando o colar em nenhuma ocasião, entraram em contato com a cortesã pessoal de Maria Antonieta, Madame Campam, perguntando sobre o problema do pagamento do colar, e o porque ela ainda não havia usado.

Surpresa com questão, respondeu que não tinha conhecimento sobre o assunto mas que informaria a rainha imediatamente.

O golpe desvendado:

Ao saber desta história, Maria Antonieta ofendida pela audácia do cardeal Rohan em usar seu nome para comparar um colar, pediu uma investigação urgente para barão Breteuil (1730-1807), principal ministro do rei Luís XVI, inimigo declarado do cardeal. Rapidamente todo o golpe foi desvendado.

Em 15 de agosto de 1785, o cardeal Rohan pronto para celebrar a missa de Assunção na capela real de Versalhes foi convocado pelo rei Luís XVI para se explicar.

Depois de insistir que foi enganado pela condessa Motte-Valois e seus cúmplices, jurou inocência pedindo perdão e clemência.

O rei sem hesitar ordenou a prisão do cardeal em plena Galeria dos Espelhos, e logo enviado a fortaleza e prisão da Bastilha, em Paris, a espera de um julgamento.

Neste momento o maior golpe do século XVIII tornou-se público.

Prisão e processo:

Em seguida são presos, a condessa La Motte-Valois, o falsário Rétaux de Villette, Nicole Leguay d’Oliva a sósia de Maria Antonieta e o mago Cagliostro. Quanto ao marido da condessa, Nicolas de La Motte ao saber das prisões, conseguiu fugir para Londres.

Em 1786, devido sua reputação perante a igreja e o nome da sua família, o cardeal de Rohan pode escolher entre um julgamento pessoal do rei Luís XVI ou um processo público pelo Parlamento de Paris.

Logicamente preferiu o Parlamento, pois num juri popular teria mais chances de ser inocentado, enquanto que pelo rei era quase certo que seria julgado culpado por um crime que não cometeu.

Finalmente a escolha foi correta, pois o cardeal de Rohan foi absolvido de todas as acusações, mas obrigado a vender várias de suas propriedades para reembolsar os pobres joalheiros Bassange e Böhmer. Os herdeiros descendentes do cardeal continuaram a reembolsar os herdeiros descendentes dos joalheiros até 1881.

Rétaux de Villette foi julgado culpado por falsificação, condenado ao exílio. Em Veneza escreveu em 1790, “Mémoire historique des intrigues de la Cour” (Memória histórica das intrigas da Corte). Morreu em 1797.

Cagliostro foi expulso da França e condenado por heresia pela inquisição italiana, morreu na prisão em 1795.

Nicolas de la Motte foi condenado as galeras (trabalho forçado nas caravelas), mas como estava foragido, não cumpriu pena. Voltou para Paris depois da Revolução Francesa e continuou vivendo com o dinheiro extorquido do cardeal até morrer em 1831.

Nicole Leguay d’Oliva foi absolvida, morreu aos 28 anos.

Jeanne de Valois-Saint-Rémy ou Condessa La Motte-Valois foi condenada a perpétua, torturada e marcada com ferro quente com a letra V de “Voleuse”, (Ladra), conseguiu fugir rapidamente para Londres subornando o chefe da guarda da prisão, suicidou-se ou foi assassinada em 1791.

Maria Antonieta culpada:

Longe de limpar a honra de Maria Antonieta o processo público ao contrário do que se pretendia fortaleceu a imagem de uma rainha culpada. As consequências indiretas três anos depois forneceu argumentos para a queda da monarquia absoluta, início da Revolução Francesa de 1789, descrédito do poder real, impopularidade, condenação e guilhotina de Maria Antonieta e Luís XVI.

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3 Comentários


  1. Uma história muito interessante, uma conspiração “saborosa”que rendeu frutos amargos para quase todos os envolvidos, já que um deles escapou e a queda, a desgraça e uma morte humilhante para Luis XVI e Maria Antonieta…

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  2. Nos bastidores dos reinos todos os ambiciosos, desejosos das fatias polpudas que as cortes podiam oferecer, sempre tramaram, uns contra os outros.
    Tal como nos períodos monárquicos hoje, também, organizam-se ciladas pelo poder.

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