Pítia de Marcello na Ópera Garnier

Pítia de Marcello na Ópera Garnier

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Pítia de Marcello na Ópera Garnier (Fontaine de la Pythie) é uma obra em bronze realizada pela escultora suíça, Adèle d’Affry (1836-1879), duquesa de Castiglione.

Retrato de Marcello ou Adèle d'Affry (1877), de Edouard-Théophile Blanchard.
Retrato de Marcello ou Adèle d’Affry (1877), de Edouard-Théophile Blanchard.

Adèle d’Affry artista aristocrata, boémia, rica e viúva que aos 20 anos para impor sua arte expressiva e ousada numa época onde tudo era governado por preconceitos e maneiras machistas, principalmente sobre as mulheres artistas, teve que adotar um pseudônimo masculino,“Marcello”, para entrar no mundo da arte.

Benedetto G. Marcello (século XIX), de Vincenzo Roscioni. BnF.

Marcello” em referência a Benedetto Giacomo Marcello (1686-1739), compositor italiano do século XVIII , que ela tinha grande admiração.

Ópera Garnier:

A Ópera Nacional de Paris (ou Ópera Garnier) construída entre 1861 e 1875 é uma obra-prima do arquiteto Charles Garnier (1825-1898). Templo da música, do teatro, de belezas decorativas simbólicas e inovações arquitetônicas. Considerada também como o próprio arquiteto imaginou, o templo de Apolo.

Pítia de Marcello na Ópera Garnier
Ópera Nacional de Paris ou Ópera Garnier. Foto: Peter Rivera.

Apolo, deus da beleza, das artes, das profecias, música, poesia, beleza masculina, harmonia, equilíbrio e razão.

Charles Garnier comprou a profetisa Pítia de Marcello quando a escultura foi exposta no Salão de Paris em 1870.

Impressionado pela inspiração maneirista, do equilíbrio instável e das desproporções das formas, resolveu instalá-la sob a “Grande Escadaria”, próximo a sala do abonados (“foyer des abonnés”), num cenário que lembrasse a lenda da sacerdotisa do templo de Apolo, em Delfos, (Grécia).

Pítia de Marcello na Ópera Garnier
Pítia de Marcelo, sob “Le grand escalier”, da Ópera Garnier. Foto: Jérémie Maurin.

A lenda de Pítia ou da Pitonisa:

A lenda nos conta que Zeus, deus dos céus, deus da ordem e da justiça, largou duas águias divinas, após voarem por algum tempo, pousaram na ilha de Pytho, mais tarde chamada de ilha de Delfos. Tornando-se assim os olhos da Grécia, e o centro do mundo.

Apolo, filho de Zeus, resolveu transformar a ilha num santuário para mulheres oráculos, depois de ter matado a serpente “Pytho” que tronava na ilha, sobre a rocha de Sibila, nome dado as mulheres oraculares.

Rocha de Sibila, em Delfos (Grécia)
Rocha de Sibila, em Delfos (Grécia) Foto: Jean-Pierre Dalbéra.

O nome “Pítia” (Pythie, em grego) é derivado de Píton (Python), nome da grande serpente que vivia na ilha de Pytho, morta a flechadas por Apolo.

Apolo matando Píton. Gravura de Virgil Solis 1581.

A Sibila era uma mulher que fazia previsões ocasionais, independentes, em vários templos da Grécia, não necessariamente em Delfos.

A mais conhecidas entre elas foi a Sibila Cumana, citada pelo poeta romano Ovídeo (43 a.C.- 16 ou 17 a.C.), na sua obra mais famosa, Metamorfoses. Mas também recebeu outros nomes como: Herófila, Demo, Femonoé, Deífoba, Demófila e Amalteia.

Afresco da “Sibila Delfica” (1509), de Michelangelo. Capela Sistina.

As Pítias também eram profetizas, mas tinham um status diferente e regulamentado no santuário de Apolo em Delfos, entre o século VIII a.C. e IV a.C. Eram escolhidas entre garotas virgens, de preferência incultas e pobres da região.

Mas depois que uma delas foi violentada, a escolha passou ser feita com mulheres de mais de 50 anos, onde deixavam marido e filhos para aderir a essa honra.

"Pítia de Delfos" (1880), desenho de Camillo Miola (Biacca).
“Pítia de Delfos” (1880), desenho de Camillo Miola (Biacca).

Elas se vestiam de branco e viviam dentro do templo (recinto sagrado) protegidas de toda a impureza.

Quanto os visitantes vinham em busca das premonições tinham que realizar um cerimonial antes de poder encontrá-las: jogavam água fria numa cabra, se o animal se estremecesse significava que o deus-Sol, Apolo, concordava em se comunicar por sua porta-voz, Pítia.

A cabra era sacrificada e a Pítia entrava em cena tomando banho na fonte de Castália, para se purificar. Depois sentava num banco de três pernas, e mastigava folhas de louro.

"Pítia de Delfos" (1891), de John Collier (1850-1954).
“Pítia de Delfos” (1891), de John Collier (1850-1954).

Entravam em transe por causa por vapores que subiam de uma fenda no rochedo na qual o templo havia sido construído.

Sacerdotes transmitiram as perguntas dos visitantes a profetiza, que respondia coisas aparentemente sem sentido consideradas como enigmáticas profecias, e conhecidas somente na literatura grega.

Proferia também sons incompreensíveis interpretados pelos assistentes de maneira ambígua. Após a consulta, a Pítia caia em uma letargia durante vários dias.

Até hoje, nenhuma explicação foi realmente dada a esse fenômeno. A teoria mais avançada é que uma falha terrestre liberaria gases eufóricos.

Outra tese afirma que a Pítia era drogada antes de começar, mas ainda não houve descoberta para verificar essa explicação.

O fato é que o oráculo de Delfos desempenhou um papel fundamental na vida política da Grécia e, em particular, em sua população, pois durante muitos séculos, nenhuma grande decisão foi tomada, e nenhuma expedição era feita antes de ela ser consultada.

Pítia de Marcello na Ópera Garnier:

Mesmo que o tema pareça clássico, nada no tratamento da escultura evoca a Antiguidade.

O rosto está longe dos cânones clássicos em seu trabalho expressivo, seus cabelos rebeldes e as formas tensas do corpo evocam seu aspecto selvagem. Aqui, a Pítia é nitidamente tomada pelo oráculo e pela visão.

Pítia de Marcello na Ópera Garnier
Pítia de Marcello, na Ópera Garnier. Foto: Alfonso Javier Benítez.

Seu corpo curvado para frente cria toda a intensidade do momento que entrou em transe.

O único elemento que nos permite identificar a personagem é o banco de três pernas na qual está sentada e a fonte, como descrito na lenda. acima.

Marcello representou uma Pítia meio indiana com traços de cigana ao invés de uma figura clássica da Grécia antiga.

A apresentação da Pítia sentada em frente a fonte (que hoje se encontra desligada), justamente na passagem obrigatória e privativa dos ricos aristocratas abonados da Ópera (“foyer des abonnés”) penso eu, foi a maneira encontrada por Garnier, para que os homens, olhassem com mais respeito e admiração, uma obra magnífica, assinada por uma mulher.

Adèle d’Affry faleceu ao 43 anos, em 1879, por um forte crise de tosse (hemoptise) legando em testamento várias esculturas a cidade de Friburgo (Suíça) na condição que fosse criado um museu destinado a elas.

Pítia de Marcello na Ópera Garnier
Pítia em bronze, de Marcello (1880). Museu de História Natural de Friburgo.

Existe uma cópia da Pítia (1880) feita em tamanho reduzido, na magnífica galeria “Marcello“, no Museu de História Natural de Friburgo (Suíça), realizado segundo seu desejo póstumo.

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5 Comentários


  1. Como sempre, adorei seu artigo, Tom. Nunca tinha prestado atenção a essa escultura na Ópera Garnier. Na próxima vez com certeza irei conhecê-la e admirar os detalhes incríveis que você tão bem nos descreve.

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    1. É por isso que se chama segredos de Paris. Espero poder mostrar pessoalmente na sua próxima viagem! Abraços e merci!

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  2. Obgda por mais uma interessante narrativa.
    É cativante sua forma de redigir, nos fazendo sentir como se estivéssemos no ambiente descrito.
    Nesse momento triste e preocupante da pandemia q atinge td a humanidade, é muito bom poder mover o foco para as maravilhosas gotas de seu conhecimento q vc compartilha com tanta generosidade.
    Parabéns.

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    1. Oi Leila! É claro que preferia estar lhe mostrando ao vivo, mas também é um prazer de tentar compartilhar, mesmo que virtualmente, um pouco dos meus conhecimentos de guia em Paris, principalmente agora que estamos todos confinados. Obrigado pelo simpático comentário! Abraços!

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  3. É sempre interessante ler seus artigos. Linguagem acessível e grande conhecimento. Parabéns.

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