O brinde e os venenos na corte de Luís XIV

O brinde e os venenos na corte de Luís XIV

Tempo de leitura: 9 minutos

A origem do brinde e os venenos na corte de Luís XIV

Em 1670, Luís XIV, com 32 anos é surpreendido com uma trágica e brutal notícia que amante e cunhada, Henriquetta Anne Stuart da Inglaterra, 26 anos, morreu subitamente em poucas horas após ter tomado um copo de água com chicória.

Gabriel Nicolas de La Reynie (1670), por Pierre Mignard.

Perturbado com esse acontecimento, e desconfiado que poderia ter sido envenenada por algum inimigo contrário a uma aliança entre a França e a Inglaterra, ordena ao seu principal homem de confiança, Gabriel Nicolas de la Reynie, 1° tenente da polícia de Paris, a investigar com muita descrição quem poderia ser este criminoso.

Mortes estranhas

Um ano depois, morrem misteriosamente o ministro do Estado e das Relações Estrangeiras, Hugues de Lionne e o Arcebispo de Paris e confessor de Louis XIV, Hardouim de Beaumont de Péréfixe.

Nenhuma prova e nenhum suspeito até que em 1672, um oficial da cavalaria do Rei, Jean-Baptiste de Sainte-Croix é encontrado morto aparentemente de causas naturais. O policial, La Reynie e seu ajudante, François Desgrez fazem buscas na casa de Sainte-Croix, e descobrem vários frascos com líquidos e produtos estranhos.

Após serem analisados por um apotecário especialista comprovou-se que estes frascos tinham uma alta concentração de arsênico, grãos de ópio, venenos de cobras e sapos, folhas de cicuta, ervas venenosas e outros derivados.

Os primeiros Acusados

Na casa de Sainte-Croix foi encontrado também nove cartas de sua amante, Marie-Madaleine d’Aubray, (Marquesa de Brinvilliers) relatando a participação dos dois, no assassinato por envenenamento, em 1666, de Dreux d’Aubray, pai de Marie-Madaleine d’Aubray, e prefeito de Paris.

Estava anotado também a morte de dois irmãos de Marquesa de Brinvilliers, ocorrido em 1670, para ela poder receber uma herança como sendo a única herdeira.

Também foi encontrado um reconhecimento de dívida de Sainte-Croix a Louis Reich de Pennautier, cobrador geral da igreja, grande amigo de Colbert, principal ministro de Luis XIV, e suspeito de ter mandado envenenar o anterior secretário geral, e assim ocupar o cargo vago.

La Reynie concluiu que Pennautier contratou Sainte -Croix e a Marquesa de Brinvilliers para envenenarem o ex-agente e cobrador da igreja, e que depois do feito, ele contratou diretamente a marquesa para matar o amante, Sainte-Croix, que guardava muitas provas contra eles (queima de arquivos).

O crime seria perfeito se tivessem tido tempo para recuperarem as cartas, mas como La Reynie foi mais rápido, um mandato de prisão foi lançado contra os dois.

Pennautier conseguiu provou que Sainte-Croix lhe devia dinheiro e como nas cartas não se falava da morte do agente da igreja, não havia motivos para prendê-lo, então foi liberado.

Quanto a Marquesa de Brinvilliers, desapareceu da França.

Outras mortes

Em 1673, morreu o conde de Soissons, tenente Geral do Estado, casado com Olympe Mancini, ex-amante de Luís XIV, e sobrinha do Cardeal Mazarin, 1° ministro da França.

Marie-Madeleine-Marguerite d’Aubray, Marquesa de Brinvilliers.

Em 1676, La Reynie e Desgrez encontrram a Marquesa de Brinvilliers escondida em um convento em Liège, na Bélgica.

Depois de extraditada e bem torturada acabou confessando alguns crimes (aproximadamente 54 mortes), mas sem entregar a lista de seus ilustres clientes.

Morreu decapitada por uma espada, na praça “de Grève”, atual praça de l’Hotel-de-Ville, em Paris.

E Pennautier foi absolvido de todas as acusações.

La Voisin, a estrela dos venenos

Em 1677, La Reynie e Deprez conseguiram prender em 1677, uma dezena de suspeitos na morte do duque de Savoie, Charles Emmanuel II.

Todos foram submetidos a torturas, e entre eles, duas mulheres, Marie Bosse e Marie Vigoureux, que de tanto sofrerem acabaram entregando uma lista com os principais nomes no comércio de venenos.

Catherine Deshayes, La Voisin.

Mas somente em 1679 foi quando prenderam a principal a especialista das artes ocultas, a estrela da magia negra, Catherine Deshayes, apelidado, La Voisin.

Convidada famosa e frequente nos salões da alta aristocracia parisiense, proprietária de uma verdadeira farmácia de poções mágicas e produtos misteriosos. Praticante confessa de 2.500 abortos, missas negras, cerimônias satânicas, orgias, feitiçarias e rituais com sacrifícios humanos.

Com ela uma verdadeira rede de agentes do mal foi desvendada; alquimistas, apotecários, bruxos, bruxas, padres de missas negras e charlatões de todas as espécies.

Pequena lista de clientes renomados de La Voisin

O escândalo começou mesmo quando foram citados os nomes dos clientes da La Voisin:

  • Olympe Mancini e Marie Anne Mancini, (sobrinhas do cardeal Mazarin, 1° ministro de Louis XIV).
  • Princesa D’Abert de Tingry, (dama do palácio da rainha Maria Teresa da Áustria, 1°esposa de Luis XIV).
  • Duquesas: D’Angoulême, de Bouillon, de Vitry, de Vivonne, de la Mothe, Madame d’Alluye, de Polignac.
  • Condessa du Roure.
  • Duques; de Luxembourgo, de Vendôme, de Brissac.
  • Marqueses: de Cessac, de Feuquières, de Termes, Mademoiselle des Oeillets.
  • Poeta Racine e muitos outros.

Uma lista demasiadamente importante que La Renyie foi obrigado a prevenir o rei.

“l’Affaire des Poisons”

Estranha época onde mulheres matavam seus maridos sonhando virem a serem amantes do rei, e os homens buscavam privilégios reais, sucessões, promoções, riquezas nos negócios, sorte nos jogos, vitórias nas guerras…

Em 7 de abril de 1679, Luís XIV, horrorizado com essas atrocidades no seu reinado ordenou a criação de uma comissão especial para julgar o Caso dos Venenos, ou l’Affaire des Poisons, e condenação de todos os envolvidos na prática destes crimes.

Esta comissão ficou conhecida na história pelo nome, “La chambre Ardente”, (tribunal extraordinário para julgar crimes excepcionais).

Como nas antigas instituições medievais esse tribunal era reunido numa pequena sala com paredes escuras e iluminada somente por tochas. Compostas por 12 magistrados da alta corte, dois médicos, dois apotecários e pelo investigador principal de todos os processos, La Renyie.

O terrível fim da La Voisin 

Em 1680, La Voisin foi condenada de maneira bastante bárbara, mãos perfuradas e cortadas e queimada viva em praça pública, praça de Greve, em Paris.

O escândalo fica imensamente grave quando Marie-Marguerite, (filha de La Voisin), contou que sua mãe era fornecedora oficial de poções mágicas para Madame de Montespan, amante preferida do rei Luís XIV.

Uma preferida do rei envolvida no escândalo

Segundo Marie-Marguerite, Madame de Montespan contratou La Voisin para resgatar o amor do rei, que se perdia a cada momento, com o passar dos anos. Tentou de tudo; poções mágicas, missas negras, feitiçarias e por final a morte do rei Luís XIV, e da sua última amante, mademoiselle de Fontanges, por envenenamento.

Valor cobrado pela La Voisin e cúmplices, neste projeto de assassinato, 300.000 livres. Uma quantia muito alta para época.

Mas La Voisin presa, ninguém recebeu, e os dois crimes não anulados, mas obrigará Luís XIV a reagir rapidamente antes que esta história chegasse na corte.

E tudo termina em “pizza”, e em silêncio.

O rei proibiu o policial La Renyie de continuar as investigações que envolviam membros da corte, em particular contra sua ex-preferida, Madame de Montespan, mãe de seus 4 filhos reconhecidos e legitimados.

Em julho de 1682, sete meses após a execução do último condenado a forca, o “tribunal dos venenos” é encerrado.

Todos os presos que sabiam do envolvimento de Madame Montespan no plano para matar o rei, como Marie-Marguerite, a filha de la Voisin, os abades Lesage e Guibourg, Vanens, Le Pelletier, Delaporte, e todos os prisioneiros que dividiram cela com essas pessoas, são liberados de julgamento.

Por lei, não havendo julgamento por um tribunal, o rei não pode autorizar uma condenação a pena de morte.

Portanto, todos envolvidos serão enviados a prisões (a vida) em províncias bem distantes da corte de Versalhes.

Balanço das condenações

Durante os três anos da existência deste tribunal, aconteceram 210 audiências, 319 decretos de prisão, 194 pessoas liberadas sem julgamento, 104 pessoas julgadas onde 36 foram condenados a morte, 34 foram expulsos do país, 30 foram absolvidos, 1 multado e 5 pessoas enviadas para galeras.

Triste fim para Madame Montespan

Françoise-Athénaïs de Rochechouar ou Madame de Montespan. pintor Anônimo.

Madame Montespan em plena desgraça ainda viu o rei se casar com sua amiga e governanta de seus filhos, Madame de Maintenon.

Saiu de Versalhes somente em 1691 para morar em Paris até morrer em 1707.

Todos os documentos que a incriminavam foram queimados pelo próprio Luis XIV, em 1709.

Fim do “Affaire des Poisons”.

Saúde !

Por causa desta história quando o champanhe virou moda na corte de Luís XV, bisneto de Luís XIV, virou hábito olhar nos olhos da pessoa que serviu a taça trocar os líquidos entre eles, e brindar dizendo a famosa frase: Santé ! (Saúde).

Essa desconfiança somente terminará no século 19.

E tim-tim ! 

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Livros:

Sugestões: 10 Livros sobre Paris e seus Segredos.

E-book:

Guia de Viagem: “Paris Vivências”, de Cynthia Camargo.

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3 Comentários


  1. Muito bom, gostei bastante. A família da minha bisavó francesa deve ter vivido nesta época , embora talvez,não saiba dos acontecimentos por não fazer parte da corte.

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  2. Parabens Tom , pela aula de historia. Li pela segunda vez esse artigo pois estou assistindo a serie Versalles e me esclareceu bastante. Tambem sobre a maldiçao da sexta feira 13, acabei de ler e mais uma vez , obrigada pelos artigos . Todos muito bons.Adoro historia.

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  3. Ótimo artigo. Imagino tudo o que teria acontecido e jamais foi divulgado…. Obrigado Tom, pela aula de história!

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