As duas múmias da praça da Bastilha

As duas múmias da praça da Bastilha

Tempo de leitura: 7 minutos

Pesquisando em  fontes confiáveis cheguei a conclusão que existe duas versões para a lenda das duas múmias da praça da Bastilha, uma em 1801 e outra em 1827, mas nenhuma com provas concretas e detalhes significantes que justifique qual versão é a correta, somente histórias contadas por antigos historiadores e contos populares.

1801: Versão Napoleão Bonaparte.

Em 1798, o general Napoleão Bonaparte (1769-1821), futuro Napoleão I°, partiu em campanha na África com a pretensão de conquistar o Egito e outros países, e assim bloquear os ingleses, o acesso aos caminhos das Índias do Oriente.

Sabendo das riquezas que o Egito detinha, aproveitou-se para organizar uma expedição científica como muitos sábios, historiadores, botanistas, desenhistas… E estudar os mistérios e tesouros enterrados pelas antigas dinastias faraônicas.

Durante os três anos que durou a ocupação do Egito até a 1801, ano da derrota final do general Napoleão Bonaparte, vários objetos funerários, esculturas e algumas múmias, conseguiram furar o bloqueio inglês no mediterrâneo, e chegar intactas para serem analisadas e expostas no Museu Central das Artes da República, (antigo Palácio do Louvre, futuro Museu Napoleão, atual Museu do Louvre).

Decomposição das múmias de Napoleão:

Devido  a longa viagem do Cairo até Paris, e pela  falta de conhecimento dos responsáveis científicos que as trouxeram, as múmias começaram a se decompor pela exposição da luz natural, umidade do ar, calor… Foram obrigadas a serem enterradas rapidamente nos jardins do Louvre, como pessoas comuns. Não restando nenhuma para contar a história.

Segundo outros historiadores, as múmias que chegaram do Egito foram levadas para serem estudadas numa sala especifica, da Biblioteca Nacional, e quando compeçaram a se decomporem foram enterradas num jardim próximo dali.

1827: Versão Carlos X.

Durante o reinado de Carlos X (1824 – 1830), o vice-rei do Egito, paxá Maomé Ali (1789-1849) embalado pelas descobertas científicas na Europa e conhecendo a paixão deste rei pelas antiguidades egípcias achou oportuno fazer uma aliança diplomática e militar com a França contra a ameaçadora Inglaterra.

Presentes do paxá:

As duas múmias da praça da Bastilha
Maomé Ali (1789-1849).

Para conquistar a simpatia de Carlos X, o paxá Maomé Ali ofereceu três presentes bem exóticos e originais;

– Uma girafa, chamada Zarafa.

– Dois obeliscos do templo de Luxor.

– E uma dezena de múmias em seus sarcófagos de granito, para o museu do Louvre.

A 1° girafa da França, Zarafa ficou muito famosa, uma pop-star na época, somente no ano de 1827 recebeu mais 600.000 visitantes. Morreu em 1845, no “Jardim das Plantas”, em Paris.

Dos dois Obeliscos de Luxor oferecidos, somente um chegou em Paris, em 1836, já no reinado de Luis Filipe I°, (1830 – 1848), onde foi instalada na atual praça da Concórdia.

As múmias foram recebidas em grandes pompas por Carlos X, em 1827. Após que os sarcófagos serem abertos e expostos por alguns dias ao grande público, um cheiro horrível começou a se exalar pelas salas do Louvre.

Decomposição das múmias de Carlos X:

Devido ao forte calor da viagem e o clima úmido da França, príncipes, generais, um faraó desconhecido, e um grande sacerdote de nome “Pentamenou” começaram a se decompor rapidamente em míseros cadáveres ordinários.

Pânico geral entre os conservadores e historiadores, o rei Carlos X decepcionado com o ocorrido ordena então que todas as múmias fossem enterradas rapidamente nos jardins do Louvre, em frente da atual igreja de São Germano de Auxerre.

2° Revolução Francesa.

Em 1830, Carlos X, descontente com o pouco poder que tinha para tomar decisões para governar o país, tentou através de vários decretos a volta da monarquia absoluta, como na época do seu irmão decapitado Luís XVI (1774-1793).

A Liberdade guiando o povo, de Eugène Delacroix (1830)
A Liberdade guiando o povo (1830), de Eugène Delacroix.

Combatendo essas decisões, a pequena burguesia, sociedades secretas e o proletariado urbano se uniram contra esse rei e suas idéias, proclamando assim, uma 2° revolução francesa.

Revolução essa que ficou conhecida como as Três Gloriosas, ou “Les Trois Glorieuses”, dos dias: 27, 28 e 29 de julho, e que levou a renúncia e banimento do rei Carlos X.

No seu lugar assumiu um primo liberal, progressista e constitucionalista, o rei Luis Filipe I°, descendente da casa dos Orleães (avô de Gastão de Orleães, o Conde d’Eu, da princesa Isabel, do Brasil).

Durante o três dias, ocorreram muitas mortes no lado dos civis combatentes, e devido ao calor e falta de recursos do povo, muitos corpos foram enterrados rapidamente e de qualquer jeito, em vários locais de Paris; jardins de igrejas, terrenos vazios, jardins públicos, biblioteca Nacional…

Nos jardins do Louvre foram enterrados 32 patrióticos, bem próximos onde já se repousavam as famosas múmias decompostas de Napoleão Bonaparte (1801) ou de Carlos X (1827).

No total 788 mortos do lado dos revolucionários,  e 163 do lado do rei. E milhares de feridos somando os dois lados.

A Coluna de Julho ou “La Colonne de Juillet”.

Em 1831, com o restabelecimento da paz em Paris, Luis Filipe I° comemorando o primeiro aniversário da Três Gloriosas ordenou que fosse construída no centro da praça da Bastilha, uma sepultura digna para todos os mortos que lutaram bravamente nesta revolução.

A lenda duas múmias da praça da Bastilha
Praça da Bastilha.

Inaugurada somente 10 anos depois, uma coluna de bronze, de 50 metros de altura, (“la Colonne de Juillet”) foi projetado abaixo de sua base, uma galeria funerária para receber os 504 heróis revolucionários que se encontravam espalhados por toda a cidade.

Seus nomes estão gravados na coluna de bronze.

Luis Filipe I° na mesma forma que seu primo, Carlos X, numa revolta menos violenta da população, renunciou em 1848. Seu trono foi queimado em frente a coluna de julho.

Fim ao regime monárquico, na França.

Por ordens do 1° presidente da república, Carlos-Luis Napoleão Bonaparte (futuro Napoleão III), mais 203 vitimas que lutaram para queda do rei Luís-Felipe I°, também foram sepultados numa 2° galeria subterrânea da Coluna de Julho.

Múmias patrióticas

Em 1940, a cripta foi aberta para uma restauração e reforma dos interiores, uma nova contagem dos mortos na galeria foi feita e para surpresa geral, dois corpos a mais se ajuntaram ao número oficial. Passando de 504 para 506 mortos.

Historiadores  acreditam que ao transladarem os 32 corpos dos combatentes mortos em 1830, que se encontravam nos jardins do Louvre (ou na Biblioteca Nacional), duas múmias de mais de 3.000 anos foram levadas por engano para galeria da praça da Bastilha.

Hoje portanto, duas personalidades do antigo Egito recebem homenagens patrióticas, como verdadeiros heróis da liberdade e da democracia francesa.

Cripta da Coluna de Julho, Praça da Bastilha. Foto: Didier Plow.

Atualmente, a Coluna de Julho, na praça da Bastilha, passa por uma restauração completa.

As galerias serão aberta ao público, ainda neste ano de 2019. Não percam essa visita histórica, e quem saberemos mais detalhes a respeito das duas múmias “revolucionarias”, se é verdade ou não, esse Segredo de Paris.

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2 Comentários


  1. Mais um “segredo delicioso” da nossa amada cidade. Obrigada por contá-lo para nós.

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  2. Adorei essa história! Num retorno à Paris quero conhecer esta Coluna de Julho e suas galerias subterrâneas.

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