O enigma sobre o homem da máscara de ferro

O enigma sobre o homem da máscara de ferro

Tempo de leitura: 13 minutos

O enigma sobre o homem da máscara de ferro

O enigma sobre o homem da máscara de ferro está relacionada com a história do rei Luis XIV, pois foi durante seu reinado que surgiu este estranho personagem estudado até hoje para que seja desvendado.

Luís XIV, aos 23 anos após receber de seu ministro Jean-Baptiste Colbert, um relatório revelando que o seu homem de confiança, Nicolas Fouquet, superintendente das Finanças desapareceu com 50% dos impostos arrecadados em 1659, construiu um castelo (Vaux-le-Vicomte), e que estaria mais rico que ele próprio ordenou imediatamente sua prisão para ser investigado como mais profundidade.

Charles de Batz de Castelmore, o mosqueteiro chefe da guarda real do rei, conhecido pelo nome de Artagnan, em 5 de setembro de 1661, foi incumbido dessa missão, em prendê-lo e vigiá-lo até o julgamento final.

Sentença de Fouquet.

Nicolas Fouquet passou por várias prisões francesas, como: Limoges, Castelo de Angers, Castelo de Amboise, Castelo de Vincennes, Bastilha, e sempre que transferido era colocado cobrindo o seu roto, uma máscara de veludo (e não ferro, que só apareceria mais tarde) para não ser identificado durante os percursos. Mas estando na cela, a máscara era retirada.

Retrato de Nicolas Fouquet, por Charles Le Brun.

Em 21 de dezembro de 1664, Fouquet conseguiu após uma brilhante defesa dos seus advogados, num processo que durou três anos, ser absolvido parcialmente pela justiça (dos homens), recebendo uma leve pena, como; confisco dos bens e banimento da corte, num raio de 100 km do centro de Versalhes.

Mas, Luís XIV, único representante na terra, que tinha o direito de governar com os mesmos poderes Deus, esperava algo mais severo como por exemplo; uma prisão perpétua ou uma condenação à morte.

Prisão Fortaleza Pinarolo.

Inconformado com a sentença, resolveu apelar usando pela 1° vez durante em seu reinado, da “Justiça Divina“, anulando a sentença dos homens e condenando Fouquet a passar o resto da sua vida em uma prisão e fortaleza no Pinarolo, (“Pignerol”, em francês), antiga possessão francesa, localizado na atual província italiana do Piemonte, à 50 km de Turim.

O enigma sobre o homem da máscara de ferro
Fortaleza e prisão Pinarolo, (Itália).

D’Artagnan chefe da guarda, a pedido do rei indicou um outro mosqueteiro, conhecido pelo nome de Saint-Mars, (Bénigne Dauvergne de Saint-Mars), para levar Fouquet nesta viagem da Bastilha em Paris até a prisão do Pinarolo, nos Alpes.

Em 1665, pouco tempo depois de sua chegada, Saint-Mars, por ordens de Louis XIV, se tornou o governador, da prisão-fortaleza no Pinarolo.

Chegada do prisoneiro misterioso.

A história do homem da máscara de ferro, começou em 24 de agosto de 1669, com a chegada nessa mesma prisão, de um misterioso prisioneiro Saint-Mars que recebeu ordens rigorosas, diretamente do marquês de Louvois, ministro de Luís XIV para serem seguidas obedecidas e não questionadas.

São elas:

  • É de extrema importância que o prisioneiro seja guardado com a maior segurança possível, que ele não possa de forma alguma passar notícias da sua localização, e do seu dia-a-dia na prisão.
  • Nada de cartas, mensagens orais ou qualquer tipo de contato com a vida externa da prisão, nem com outros prisioneiros, nem com guardas e carcereiros.
  • Que a cela onde que estaria preso estivesse dentro de outra cela, fechada por uma porta, de maneira que nenhum guarda pudesse escutá-lo ou vê-lo.
  • Saint-Mars deve levar pessoalmente uma única refeição, o suficiente para o dia todo.
  • Saint-Mars não deve jamais discutir com o prisioneiro e nem atender suas queixas.
  • Saint-Mars deverá ameaçá-lo de morte caso queira falar de assuntos que não sejam necessidades pessoais como; sede, dores ou frio.
  • Aquele que revelar a identidade do prisioneiro, mesmo depois que ele morrer será enforcado.

Nova prisão Exilles.

Em 1680, Nicolas Fouquet morre “oficialmente” na prisão aos 65 anos de um AVC, e um ano depois, estranhamente Saint-Mars é transferido para ser o governador de outra prisão-fortaleza, próximo também a Turim, chamada Exilles.

O enigma sobre o homem da máscara de ferro
Fortaleza e priste Exilles, (Itália).

Em uma carruagem especialmente preparada para viagem, com portas e janelas lacradas e pouquíssima ventilação viajaram secretamente também dois prisioneiros, altamente escoltados por guardas armados sobe vigilância do governador e protetor de Saint-Mars.

Surgem muitas dúvidas e desconfianças de que Fouquet não havia morrido no Pinarolo, e sim transferido secretamente juntamente com o outro desconhecido para esta nova prisão no Exilles.

Segredos de Fouquet, perigo para o rei e o Papa.

Pouco antes da transferência surgiu uma teoria na qual pensavam que Fouquet além de ter desviado fundos da corte, também guardava por membros da sua família, um imenso tesouro e documentos que poderia comprometer o poder do Papa e do Vaticano.

Para eliminar qualquer possibilidade de contato com outros prisioneiros, Luís XIV, por segurança ordenou que fosse anunciado sua falsa morte, e transferido em segredo para a prisão Exilles, desconhecida e distante dos olhos e ouvidos da corte esperando assim que o tesouro de Fouquet fosse encontrado ou revelado (por tortura?), antes dos seus inimigos.

Documentos esses que estando em sua posse daria muito poder para controlar a igreja, e a todos que se opusessem a sua política centralizadora e absoluta.

Um ilustre prisioneiro na Ilha Sainte-Marguerite.

Em 1687, um dos dois prisioneiros transferido para o Exilles morre de frio e maus-tratos. E novamente Saint-Mars é transferido e promovido a Capitão-Governador de duas ilhas Lérins; ilha Sainte-Marguerite ao norte, e a ilha Saint-Honorat ao sul. Localizadas no sul da França, na “Côte d’Azur”, (Costa Azul), em frente à cidade de Cannes.

Ilhas Lérin, Sainte-Marquerite e Saint-Honorat, (Côte d’Azur), França.

Seguindo as ordens do ministro Louvois, Saint-Mars levou o outro prisioneiro sobrevivente, para a ilha maior, a de Sainte-Marguerite.  Logo após ter desembarcado na ilha, o homem foi transportado em uma cadeira (reservada a nobreza), hermeticamente fechada por tecidos escuros, carregada por quatro homens, até um cela especial, com vista para o mar.

O enigma sobre o homem da máscara de ferro
Forte e prisão Sainte-Marguerite, Côte d’Azur , França.

Conforme as últimas exigências  de Luís XIV, o governador Saint-Mars, os guardas, e os sentinelas deveriam tratar do prisioneiro com o máximo respeito e dignidade. Ficou permitido que o prisioneiro saísse para caminhadas pelo forte, mas sempre com o rosto coberto por uma máscara de ferro ou de um tecido aveludado escuro, para que jamais fosse reconhecido. E a pena para quem desobedecer e o identificasse ainda era a forca.

Em 1691, com a morte do ministro Louvois, seu filho Barbezieux  assume o comando sobre o destino do agora famoso prisioneiro “o homem da máscara de ferro”, como ficou conhecido na prisão Sainte-Marguerite.

A última morada, a Bastilha, em Paris.

Seguindo agora ordens diretas de Luís XIV, o novo responsável pelo desconhecido prisioneiro Barbezieux enviou a seguinte carta para Saint-Mars:

O rei Luís XIV, pede para que você se mude da ilha Sainte-Marguerite para prisão da Bastilha, em Paris, com seu velho e desconhecido famoso prisioneiro da máscara de ferro, tomando todas as precauções para que não seja visto nem reconhecido por ninguém (em francês, “ni vu, ni connu”), e vigiado nas mesmas condições da precedente viagem”.

Portanto, em 29 de setembro de 1698, os jornais anunciam a chegada do novo governador da Bastilha, Saint-Mars, mas nenhum comentário sobre o prisioneiro mascarado.

Em 19 de novembro de 1703, às 22hs, o homem da máscara de ferro, que estava preso há mais 34 anos morre de enfarte na saída da missa da capela da Bastilha.

O enigma sobre o homem da máscara de ferro
Forte e prisão, Bastilha, Paris

No registro da prisão da Bastilha encontrado pelos revolucionários, em 14 de julho de 1789, (na tomada da Bastilha) relata que o preso 64389000, (homem da máscara de ferro), foi enterrado no cemitério Saint-Paul, (destruída em 1796 para construção de edifícios, no atual Marais, em Paris), com o nome falso “Marchiali” ou “Matthioli” ou ”Marchioly”, aos 45 anos.

Inventado provavelmente por Barbezieux, pois o verdadeiro conde “Marchialy” já havia falecido na prisão da ilha de Sainte-Marguerite, em 1696, aos 54 anos. No túmulo de Saint-Paul quando foi exumado anos depois, estava vazio.

Saint-Mars morreu cinco anos depois sem deixar nenhuma pista sobre a verdadeira identidade do seu prisioneiro guardado por tanto anos a sete chaves.

A história deste homem identificado mais tarde sobre vários outros nomes é um dos mistérios mais intrigantes da história da França.

O enigma sobre o homem da máscara de ferro
Máscara de ferro.

Os únicos elementos concretos que sabemos sobre este personagem era que ele foi o símbolo do arbitrarismo da época, representado por uma monarquia absoluta, autoritária que julgava em nome de Deus, quem deveria viver sofrer ou morrer.

Se ele detinha realmente segredos, pode se imaginar que era alguém muito importante e bem familiar ao rei e sua família. Pois a partir de um certo momento, foi bem tratado e protegido.

Possíveis candidatos

Analisando as correspondências enviadas de Louvois e Barbezieux, para Saint-Mars, e a lista dos prisioneiros que estiverem sobe sua guarda no Pinorolo, sete candidatos possíveis poderiam ter sido o “Homem da Máscara de ferro”:

1° – NICOLAS FOUQUET apesar de ter morrido “oficialmente”, em 23 de março de 1680, aos 65 anos pode ter sido transferido secretamente para prisão de Exilles e ter morrido “oficialmente” pela segunda vez, em 1687 ou ter sido transferido secretamente do Exilles para Ilha de Sainte-Marguerite e graças aos cuidados e atenções ordenadas por Luís XIV em relação ao prisioneiro VIP, pode ter morrido em Paris, na prisão da Bastilha, em 1703. Neste caso estaria com 89 anos e 40 anos de prisão. Pouco provável.

2° – O conde de LAUZUN, marechal do rei, preso no Pinorolo, em 1671, condenado por se casar secretamente com a prima-irmã de Luís XIV ou por ter ofendido Madame de Montespan, amante predileta do rei. LAUZUN para ter sua pena reduzida pode ter sido usado como agente duplo do rei para descobrir os segredos que guardavam FOUQUET. Querendo sensibilizar e não ser reconhecido por FOUQUET e outros prisioneiros pode ter usado uma máscara de ferro quando se encontravam secretamente nas galerias subterrâneas da prisão do Pinorolo. Um ano depois da morte “oficial” – ou transferência – de FOUQUET, sem trazer novidades foi liberado em 1681. Morreu em 1723, aos 90 anos.

3° – Um monge desconhecido, preso no Pinorolo por abuso de confiança, roubo e golpe contra a coroa, morreu em 1694.

4° – LA RIVIÈRE, empregado de quarto de Nicolas Fouquet, morreu enforcado em 1687, na prisão do “Exilles”.

5° – DUBREUIL, oficial acusado de espionagem para Espanha, liberado em 1684.

6° – Conde Ercole MATTIOLI preso no Pinorolo, em 1679, por ordem pessoal do rei Luís XIV por ter revelado segredos de estado a inimigos da França foi transferido em 1694 direto para prisão da Ilha de Saint-Marguerite, onde faleceu alguns meses depois, aos 54 anos. Mas segundo Barbezieux,  o mesmo também morreu na prisão Bastilha, e sepultado em 1703, aos 45 anos, no cemitério Saint-Paul. Há algo muito estranho nesta versão “oficial” encontrado nos documentos da Bastilha, em Paris.

7° – Segundo a tese de Voltaire seria um irmão gêmeo de Luís XIV, que sua mãe, Ana da Áustria juntamente com o seu ministro-cardeal Mazarino criaram o bebê, em algum secreto. Mas com a morte, do cardeal, em 1661, Luis XIV ao saber da existência deste irmão tomou logo as “providencias necessárias” para esconder do público essa informação que poderia mudar o rumo da historia da França, enviando-o secretamente para a prisão no Pinarolo. Tese pouco provável, pois o nascimento Luís XIV tão aguardado foi acompanhado por uma centenas de pessoas que entraram no quarto para assistirem e se certificarem que era mesmo um filho da rainha Ana, e de Luis XIII. Quanto a Voltaire, é possível que inventou essa historia para acabar com a tirania do rei Luis XIV para questionar a legitimidade da dinastia dos Burbons.

8° – É o mais provável, pois segundo alguns historiadores, Eustache DAUGER DE CAVOYE, filho de François DAUGER, possível amante da rainha Ana da Áustria, esposa do rei Luís XIII. Nasceu em 30 de agosto de 1637, dois anos antes que Louis XIV, e diziam que eram muito parecidos. Criado com um meio irmão por uma dama de honra da rainha, Marie de Lort de Sérignan, obrigada a se casar com François DAUGER, para guardar as aparências. As razões na qual levou Luís XIV prendê-lo mais tarde são desconhecidas. Uma das teorias sobre a prisão de Eustache DAUGER era que sua semelhança poderia colocar em dúvida de quem ele era mesmo filho, de François DAUGER ou Luís XIII ? E toda sua legitimidade como rei, se perderia.

A solução encontrada pelo rei foi mandar prender seu “meio-irmão”, Eustache DAUGER em 1669, antes que o escândalo fosse de conhecimento público. Preso sem julgamento pelas autoridades desapareceu sem deixar traços. Se fosse o homem que morreu na Bastilha, estaria com 66 anos, em 1703. Possível.

Muitas hipóteses, e nenhum resultado.

Várias outras hipóteses foram escritas, aumentadas, inventadas, filmadas, mas até hoje nenhuma respondeu a verdadeira questão: Quem foi realmente o homem da máscara de ferro ?

E como bem escreveu Victor Hugo:

“Un prisonnier dont nul ne sait le nom, dont nul n’a vu le front, un mystère vivant, ombre, énigme, problème.”

“Um prisioneiro onde ninguém sabe o nome, onde ninguém viu seu rosto, um mistério vivo, sombrio, enigma, problema”.

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8 Comentários


  1. Bem interessante.. e comprova que a corrupção sempre existiu e que o ser humano nada aprendeu com a evolução da sociedade..na verdade.. involuiu.
    Grata pelas aulas da nossa eterna França.

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  2. Como sempre , você nos surpreende com essas belas histórias . Fico muito grata e desejo que continue nos brincando com registros tão importantes . Um abraço.

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  3. TOM, você é realmente um estudioso da historia da França. Agora a revolução Francesa bagunçou com todos os registros referente a esse período. Muito se perdeu…foi um vandalismo contra a arte, historia, etc… Acho que você trocou no inicio do seu estudo o Rei…Não foi LUIS XVI. Abraço Luiz Gonzaga.

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    1. Oi Lula,

      Correção feita. Obrigado por me comunicar.

      O rei, na época do homem da máscara de ferro, com certeza foi Luís XIV que morreu em 1715, e o misterioso personagem em 1703.

      Agora, Luís XVI sim foi o rei da época da Revolução francesa, onde morreu guilhotinado, em 1793, ou seja 90 anos depois do nosso enigmático homem mascarado.

      Abraços!

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  4. Que delicia reler o assunto, Tom ; fez-me lembrar da adolescência, quando lia Alexandre Dumas . Obrigada!

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    1. Realmente esse assunto ainda pode dar muitos filmes e livros.
      Legal que tenha gostado me dá força para continuar a escrever.
      Obrigado por deixar seu comentário!
      Abs.

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