Coroação de Napoleão ou de Josefina?

Coroação de Napoleão ou de Josefina?

Tempo de leitura: 25 minutos

Coroação de Napoleão ou de Josefina? Essa pergunta sempre me fazem quando levo pessoas para conhecerem o Museu do Louvre.

Realmente o tema dado a obra por Jacques-Louis David (1748-1825), A Coroação de Napoleão deixa dúvidas.

No Wikipédia em português, (que todo mundo adora consultar) faz essa explicação erradamente, juntamente com outras informações. Já no Wikipédia em francês, essa explicação está correta.

Quando olhamos para obra, o que vemos de verdade é Napoleão I (1804-1814/1815) coroando sua esposa a imperatriz Josefina (1763-1814), dentro da Catedral de Notre-Dame de Paris, e não ele, se auto coroando.

A Cena

No inicio a 1° ideia de David era pintar Napoleão se coroando por ele mesmo, mas após alguns estudos que não lhe agradou, acabou aceitando a sugestão de seu aluno e assistente, Rouget, que seria melhor retratar a cena que se passou posteriormente, onde Napoleão I faz a coroação da sua esposa, Josefina, imperatriz da França.

Um gesto menos autoritário, e mais nobre, “digno de um cavaleiro”, como ele mesmo disse. E foi esse tema que finalmente foi aprovado por Napoleão I e executado pelo pintor David.

David, convidado para assistir a coroação (tipo fotógrafo da época) registrou em seu livro de notas, vários esboços, personagens e detalhes durante as mais de 4 horas que durou o cerimonial.

David só começou a trabalhar a obra, em 21 de dezembro de 1805, quando conseguiu um local bastante espaçoso para organizar a cena com ajuda de maquetes de madeira, figurinhas em cera, e todo o necessário para representar os ilustres personagens, tanto os presentes, como os nãos presentes, mas que deveriam estar a pedido de Napoleão.

O ateliê improvisado na antiga Capela de Cluny, (atual Hotel des 3 Collèges) foi determinante para dar a obra uma verdadeira realidade a cena.

Terminada em 18 de novembro de 1807 foi exposto no “Salon Carré” (salão de Paris) do Museu Napoleão (futuro Museu do Louvre), em 07 de fevereiro a 21 de março de 1808. No fim de março ainda passou por alguns retoques.

Após a queda de Napoleão em 1815, David teve que partir para o exílio em Bruxelas, (Bélgica) conservou o quadro até 1819, ano em doou ao Museu Real da França.

Em 1937, por ordens do rei Luís Felipe (1830-1848) foi retirado do depósito de obras do Museu Real, para ser exposto ao público, na sala da “Coroação ou Sagração” (sala “du Sacre”), no recém-inaugurado Museu de História da França, do Castelo de Versalhes.

Em 1889 retornou para o Louvre (nome definitivo: Museu do Louvre), e uma cópia perfeita realizada por David, entre 1808 e 1822, comandada por grupo de executivos americanos foi colocado no mesmo lugar em Versalhes, onde está até hoje.

Coroação de Napoleão ou de Josefina?

A diferença entre a versão do quadro de Versalhes, é que a irmã de preferida de Napoleão, Paulina, está vestida em rosa, enquanto que na original do Louvre, ela está em branco.

Os Regimes

Antes da proclamação de Napoleão Bonaparte, em 18 de maio de 1804 (ou 28 de floreal do ano XII), que o consagrou o Primeiro Imperador dos Franceses, e determinou o fim da 1° República francesa, o país já havia passado por três tipos de regimes políticos diferentes (ou três formas de governo):

Convenção Nacional, (21 de setembro de 1792 até 26 de outubro de 1795). Liderados pelos Montanheses (Montagnads), que instauraram um tribunal revolucionário, para perseguir e executar arbitrariamente todos que eram contrários a essa nova politica de governar. Conhecido como o Período do Terror, (1793-194), onde aproximadamente 500.000 pessoas são feitas prisioneiras, 100.000 são executados ou vitimas de massacres, 20.000 a 30.000 fuziladas, e 17.000 são guilhotinadas , sendo o mais famosos , o rei Luís XVI, em 21 de janeiro de 1793, a rainha Maria Antonieta, em 16 de outubro de 1793 (37 anos), e o principal membro  dos Montanhas, Robespierre , em 26 de julho de 1794.

O Diretório (26 de outubro de 1795 até 9 de novembro de 1799). Com a queda de Robespierre, decretando assim, o fim do terror, esse regime politico autoritário, liderado por cinco membros diretores, determina o fim da participação popular no governo e uma solida aliança com o exército graças as vitorias exteriores de Napoleão, e a alta burguesia financeira. Com a entrada dos recém-eleitos deputados, e partidários que defendiam a volta da Monarquia ( os Realistas), o Diretório sofreu um golpe de Estado, em novembro de 1799, por seus próprios membros, que votaram para criação de um novo regime, conhecido com Consulado.

O Consulado (9 de novembro de 1799 a 18 de maio de 1804). Regime politico autoritário, onde em tese deveria ser dirigido por três cônsules, Jean Jacques Régis de Cambacérès, Charles-François Lebrun e Napoleão Bonaparte.  Mas todo o poder ficou concentrado nas decisões de Napoleão, por suas vitoriosas nas guerras expansionistas, seus acordos de paz, armistícios, com a Áustria e a Inglaterra, reconciliação com a igreja católica (Concordata), fundação do Banco Frances (1800) e o novo padrão monetário, o “Franco francês”, modificação do Código Civil, crescimento da economia… Por isso, e outras razões, em 1802 ficou estabelecido que Napoleão Bonaparte fosse considerado Primeiro Consul, pelo resto de sua vida. Um governo conservador, autoritário, autocrático, centralizador.

O Império.

Com a recusa de Luís XVIII (irmão de Luís XVI, o guilhotinado) em renunciar seus direitos sobre a coroa francesa, Napoleão Bonaparte apoiado pela população que eram opostos a volta da Monarquia, e com a maioria dos votos do Senado foi proclamado em 18 de maio de 1804, o novo regime, conhecido como: Império.

Consequentemente o “Consulado” (visto acima) foi extinto, e o governo confiado a um Imperador com poder hereditário (como era na antiga monarquia). Assim sendo, Napoleão Bonaparte foi declarado, Primeiro Imperador da França, e seus descendentes, homens, sucessores do trono por direito.

Então, essa nova dinastia,  “Bonapartes”, como na época dos reis da França precisava de uma aprovação e proteção divina, ou melhor, uma aprovação e proteção de Deus, conferindo ao Imperador, um poder temporal na terra, como antigamente faziam os reis, na Catedral de Notre-Dame de Reims.

Essa coroação realizada e planejada em 02 de dezembro de 1804, na Catedral de Notre-Dame de Paris, para diferenciá-lo dos reis da França foi portanto, a melhor forma encontrada por Napoleão em confirmar e legitimar o seu poder perante todas as nações da Europa e do resto do mundo, sejam elas amigas ou inimigas.

Jacques-Louis David foi o pintor escolhido para registrar esse momento histórico, e fazer desse tema uma propaganda politica e simbólica para o mundo.

Sua missão naquele dia era pintar quatro quadros do Imperador, um passo a passo de cada cerimônia, que iria acontecer:

  • Sagração ou Coroação de Napoleão, na Notre Dame.
  • Coroação de Josefina, na Notre-Dame.
  • La Distribution des aigles (ou Distribuição dos estandartes militares na frente Escola Militar, em Paris).
  • L’Arrivée à l’hôtel de ville” (a Chegada na Prefeitura de Paris).

No contrato, Napoleão deveria pagar a David, 100.000 francos por cada tela pintada. Mas na realidade pagou somente 65.000 francos, pela “Coração de Josefina”, e 52.000 francos pela “La Distribution des aigles”. Os dois outros temas não foram pintados.

Composição da obra

A galeria de personagens representado no “Coroação de Napoleão (ou melhor de Josefina)”, segundo vários especialistas foi certamente inspirado na obra, do pintor alemão, Rubens,  “Le Couronnement de Marie de Médicis à l’abbaye de Saint-Denis le 13 mai 1610”.

“Le Couronnement de Marie de Médicis à l’abbaye de Saint-Denis le 13 mai 1610”, por Rubens.

Em exposição no Museu do  Louvre, ala Richelieu, sala “Galeria Médecis”.

No Coroação de Josefina, na Catedral de Notre-Dame de Paris, Jacques Louis-David preparou um cenário grandioso para representar aproximadamente 150 convidados.

Com a presença do Papa Pio VII, cardeais, embaixadores, altos dignitários, familiares, militares… Napoleão levanta a coroa para colocar sobre sua esposa, a 1° Imperatriz da França, Josefina de Beauharnais.

Coroação de Napoleão ou de Josefina?

A cena se abre com um grande tapete azul esverdeado convidando o espectador também a participar da cerimônia.

Napoleão I gostou tanto do que viu, que exclamou:

“Ce ne pas une peinture, on marche sur ce tableau…”  (ou em português: “Não é uma pintura, nós andamos neste quadro…”).

O ponto focal do quadro é a coroa levantada por Napoleão, destacada pela cortina verde do fundo. Uma área central enquadrada pelas cores púrpuras dos mantos de Josefina e de Napoleão.

A maior preocupação de David foi tentar fazer uma representação realista dos personagens, e de suas vestimentas. E conseguiu com muito sucesso, pois quando o quadro foi apresentado em dezembro de 1807, pela primeira vez a um público exclusivo, a grande satisfação das pessoas era tentar descobrir quem era quem no quadro.

Coroação de Napoleão ou de Josefina?

Outro ponto do foco central na construção da obra foi a cruz levantada pelo bispo de Paris, Belloy, traçado geometricamente segundo as regras dos pintores neoclássicos, e na qual David era um dos percussores.

Os personagens

Família Imperial:

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A grande parte da família Imperial ficou posicionada em frente de Napoleão, com exceção do filho de Josefina, Eugênio de Beauharnais que ficou atrás, junto aos dignitários do Império.

Coroação de Napoleão ou de Josefina?

1 – Napoleão Bonaparte I° (1769 – 1821): Antes da coroação de Josefina que vemos no quadro, Napoleão já havia se coroado com uma coroa com folhas de carvalhos, e de loros, em ouro e diamante.

Símbolo marcante nas antigas vitórias militares romanas, principalmente de Júlio Cesar, grande conquistador da Europa, que Napoleão admirava e pensava imitar.

Em seguida corou-se brevemente por cima desta, com uma réplica da coroa do rei dos Francos, Carlos Magno (768 -814), símbolo do poder do sacro Império romano-germânico.

Um gesto bem pensado de propaganda universal, confirmando uma nova autoridade Imperial na Europa, sagrada e legitimada, pelas bênçãos do Papa.

A coroação de Josefina por Napoleão I°, que David preferiu representar foi realizada depois dessas duas cerimônias de coroações, primeiro com a coroa de loros, e depois com a coroa de Carlos Magno.

Napoleão está vestido com uma túnica de seda de cor branca com bordados em ouro, um manto aberto de cor púrpura, bordados com abelhas douradas (símbolo do trabalho, da imortalidade e da ressurreição), e no interior pele de arminho.

A cor branca ou  cândida, significa pureza de espírito e honestidade, tanto ele como Josefina usavam essa cor. Daí surgiu a palavra candidato. Truque político !

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2 – Josefina de Beauharnais (1763 – 1814): Viúva de Alexandre Beauharnais está no centro do quadro, ajoelhada numa almofada de veludo, bordada com abelhas douradas, de mãos juntas, como era exigido o cerimonial, aguardando ser coroado pelo seu marido Napoleão I°, já auto coroado Imperador da França, (por esse motivo já tinha os poderes divinos de Deus na terra, para abençoar e coroar quem desejasse).

Está usando um vestido de seda branco (pureza e honestidade) de mangas longas, com fios bordados em prata. Coberta por um longo e pesado manto de veludo púrpura, bordado com abelhas douradas, e no interior, pele branca de Arminho, (símbolo da pureza, utilizada por rainhas da França). Finalizando com um diadema de ouro, pérolas e diamantes.

Na realidade as duas damas que seguraram o manto de Josefina na cerimônia foram duas irmãs de Napoleão, mas a pedido do próprio Napoleão (evitando essa humilhação histórica), no quadro foram substituídas por uma prima de Josefina, Madame Adélaïde de La Rochefoucauld, e sua dama “d’atours”, Madame Émelie de La Valette, (um tipo de companhia VIP).

Josefina está no centro da composição, que provocou várias críticas a David, pois confunde o expectador. Na verdade apesar de o tema ser conhecido como: “Coroação de Napoleão”, na realidade deveria se chamar: “Coroação da imperatriz Josefina”.

Coroação de Napoleão ou de Josefina?

3 – José Bonaparte (1768 – 1844): Irmão mais velho de Napoleão. Na época do coroamento recebeu o título de 1° Príncipe de Sangue do Império, (1804). Em seguida foi proclamado, Rei de Nápoles (1806-1808), e Rei da Espanha e das Índias (1808 – 1813).

4 – Luís Bonaparte (1778-1846): Oficial Militar durante o regime do Império foi promovido a “Condestável da França”, (em francês, “Connétable de France”), Primeiro Oficial da coroa. Em 1806 recebeu o título de Rei da Holanda. Foi casado com Hortênsia de Beauharnais, (filha do 1° casamento de Josefina). Em 1848, seu 3° filho, Charles-Louis Napoleon Bonaparte (1808 – 1873) tornou-se o primeiro presidente da França, e em 1852, com a volta do 2° Império  tornou-se o famoso, Imperador Napoleão III.

5 – Elisa Bonaparte (1777 – 1820): A mais velha entra as irmãs de Napoleão. Foi à única que teve realmente poderes políticos neste novo regime Imperial. Foi princesa do Principado de Piombino e de Luca, na Itália.

6 – Paulina Bonaparte (1780 – 1825): A irmã preferida de Napoleão, fiel e admiradora foi à única entre todos os irmãos, a visitá-lo na Ilha de Santa Helena. Graças ao seu casamento com Camillo Borghèse, Napoleão comprou a grande parte da coleção Borghèse, hoje expostas no Louvre.

7 – Caroline Bonaparte (1782 – 1839): Era a mais nova das irmãs de Napoleão. Foi casada com Joaquim Murat, marechal do Império, e depois, rei de Nápoles, e ela rainha, (1808 e 1815). Teve uma relação conflituosa com Napoleão. Morreu no exílio em Florença, Itália.

8 – Hortênsia de Beauharnais (1783 – 1737): Filha de Josefina, do seu 1° casamento com Alexandre de Beauharnais, casada com irmão de Napoleão, Luís Bonaparte. Está segurando as mãos do seu 1°filho, Napoleon-Charles Bonaparte (1802 – 1807), de 4 anos. Seu futuro 3° filho, Charles-Louis-Napoleon Bonaparte, será o 1° presidente, e o 2° imperador da França, denominado Napoleão III.

9 – Julie Clary (1741 – 1845): Esposa de José Bonaparte. Por causa dos títulos do seu marido foi rainha de Nápoles, rainha da Espanha, e das Índias. Irmã de Désirée Clary, primeiro amor de Napoleão, que posteriormente se tornou rainha da Suécia e Noruega.

10 – Napoleon-Charles Bonaparte (1802 – 1807): Filho de Hortênsia com Luís Bonaparte, neto de Josefina e sobrinho de Napoleão foi considerado até a sua jovem morte , como filho adotivo do imperador, e legitimado para se tornar também imperador, caso Napoleão não tivesse um filho natural com Josefina. Seu terceiro irmão, Charles-Louis-Napoleon Bonaparte mais tarde se tornou o 1° presidente, e o 2° imperador da França, denominado Napoleão III. O quadro de David ficou pronto, dezembro de 1807, alguns meses depois do seu falecimento pela rubéola.

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11 – Maria Letícia Ramolino (1750-1836): Mãe de Napoleão Bonaparte usando um diadema, e um véu sobre a cabeça foi colocada posteriormente por David, no centro da obra, em uma tribuna elevada para uma visão privilegiada da cena. Cercada por suas damas de Honra, Madame de Fontanges e Madame Soult (esposa do Marechal Soult).

Mas na realidade não esteve presente. Foi Napoleão que pediu para David atribuísse a ela, um lugar de honra, olhando fixamente pare ele, orgulhosa dessa nova dinastia de soberanos “Bonapartes”, que surgia naquele momento. Importante presença no quadro para legitimar a união da família imperial, perante a nova sociedade, e a população francesa.

Três motivos que levaram Maria Letícia, não estar presente no dia:

1° – Não gostava de Josefina, por ela ser viúva e mãe de dois filhos, preferia que fosse outra mulher.

2° – Não gostou da briga que Napoleão teve com seu outro filho, Luciano Bonaparte. Napoleão, não aprovou o casamento de Luciano com a viúva, chamada, Alexandrine de Bleschamp. Por esse motivo, foi expulso de Paris, e enviado a Roma. E ela no dia da coroação, preferiu estar ao lado de Luciano.

3° – Também por Napoleão não ter convidado Jerome Bonaparte, o irmão caçula que havia se casado também sem sua aprovação, com uma menor de idade chamada Elizabeth Patterson. Casamento este anulado por ordens do Imperador.

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12 – Eugênio de Beauharnais (1781 – 1824): Filho de Josefina, irmão de Hortência, pai de Amélia Augusta Eugênia Napoleona, 2° esposa de Dom Pedro I, Imperador do Brasil.

Presente na cerimônia bem atrás de Napoleão, vestido em hussardo (referente à Cavalaria ligeira) apoiado em uma espada (símbolo do poder militar) foi quem levou o anel imperial, símbolos da união de Napoleão com o povo francês.

Grandes Dignitários:

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13 – Charles-François Lebrun (1739- 1824): Durante o “Diretório” foi deputado. Durante o “Consulado” foi o terceiro cônsul ao lado de Jean-Jacques-Régis de Cambacérès e Napoleão Bonaparte. Durante o regime imperial recebeu o título de príncipe Arquitesoureiro.

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Foi quem segurou um dos objetos simbólicos, “Regalia Royaux”, usados em comemorações pela realeza francesa.

O “Cetro com a águia Imperial” foi inventado por Napoleão para simbolizar seu poder e sua majestade Imperial ou “Comandante enviado por Deus para guiar seu povo para as Vitórias”. Uma imitação genérica do Cetro (“Sceptre”) do rei Carlos V, que tinha na sua ponta o trono de Carlos Magno, conservado hoje no museu do Louvre.

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14 – Jean-Jacques-Régis de Cambacérès (1753 – 1824): Deputado e membro do Senado durante a revolução francesa votou contra a condenação a guilhotina do rei Luís XVI, e sim para a uma prisão provisória até o retorno da paz na França.

Durante o “Consulado” foi o segundo cônsul ao lado de Charles-François Lebrun, e Napoleão Bonaparte. Durante o regime Imperial recebeu o titulo de Arquichancelier do Império, uma espécie de Vice Imperador, que podia assumir a presidência do Senado e do Conselho de Estado, quando Napoleão não estivesse na França. Segurou outro objeto simbólico monárquico durante a cerimônia: O bastão com a “Mão da Justiça”.

Originalmente é uma pequena escultura com três dedos levantados, que representam: O polegar: o rei; O indicador: a razão; O médio: a caridade; E os dois dedos abaixados: a fé católica.

No quadro de David, a mão foi remodelada e unificada, todos os dedos estão levantados, que significa a autoridade do Poder Judiciário com o novo Código Civil, e seu Poder religioso, abençoado pela autoridade religiosa cristã (pelo Papa Pio VII).

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15 – Louis-Alexandre Berthier (1753-1815): Durante o Consulado foi Ministro da Guerra, e durante o regime napoleônico foi Marechal do Império. Em 1906 recebeu o título de príncipe de Neuchâtel et Valangin, na Suíça.

No quadro ele segura uma almofada que contém o “Globo terrestre com uma Cruz”, (em latim, “Globus cruciger, em francês, “Globe crucigère”).

Mais um objeto monárquico, símbolo cristão de autoridade utilizado desde a idade média. O Salvator Mundi”, ou Salvador do Mundo, foi colocado por David, para lembrar que o imperador Napoleão, tem um poder temporal de Deus na terra, e é um legítimo representante de Dele.

16 – Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (1754-1838): Renomado por sua carreira diplomata excepcional: No antigo regime foi deputado na Assembleia dos Estados Gerais. Na Revolução Francesa foi presidente da Assembleia Nacional. Durante o Diretório e o Consulado foi ministro das Relações exteriores. No I° Império de Napoleão foi embaixador e ministro do exterior. Durante a restauração foi presidente do Conselho dos Ministros, e de novo embaixador sobre a Monarquia de Julho. Esteve presente em quatro coroações por ordem: Luís VI, Napoleão I°, Carlos X, e Luís Filipe I°.

Outros objetos simbólicos da realeza francesa que estão  dissimulados na obra de David:

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A – Réplica da coroa de Carlos Magno: Uma forma de comparar seu futuro império como foi do rei dos Francos, e do sacro Império Romano-Germânico de Carlos Magno. Foi utilizado na cerimônia brevemente quando colocada por ele mesmo, sobre  a coroa de louros e alguns segundos sobre o diadema de Josefina. Durante a cerimônia esteve nas mãos do marechal do Império, François Étienne Kellermann. Em exposição no museu do Louvre.

B – Espada de Carlos Magno ou “La Joyeuse”: Espada usada pelos reis da França desde o rei Filipe-Augusto (1180 – 1223). Está dissimulado ao fundo levantado ao ar pelo marechal da França, François-Joseph Lefebvre. Em exposição no museu do Louvre.

C – Cetro de Charles V, ou “Sceptre de Charlemagne”: Símbolo do poder Imperial. Apareceu pela 1° vez na coroação do rei Carlos V (1364 – 1380). Durante a cerimônia da coroação esteve com o Marechal da França, Catherine-Dominique de Pérignon, e atualmente esta em exposição no departamentos de objetos de Arte do Museu do Louvre. 

O Clero:

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17 –  Papa Pio VII (1742 -1823): Sentado olhando para as costas de Napoleão, em posição de inferioridade, sem os atributos principais pontificais, a mitra e a tiara papal. Identificado somente por causa do “Pálio”, espécie de manta de lã, que cobre os ombros do Papa, bordado com seis cruzes pretas, (símbolo da soberania da Igreja Católica Romana em suas metrópoles). Retratado aqui com uma testemunha passiva da cerimônia, um personagem apagado que parece estar fazendo figuração numa peça teatral.

Inicialmente foi desenhado por David com as mãos apoiadas nos joelhos foi modificado por ordens de Napoleão que preferiu vê-lo abençoando o casal imperial, do que vê-lo sentado sem fazer nada.

Lembrando que o Papa, não estava nada satisfeito com a lei estabelecida pelo Império, em 1801,(Concordata) que lhe dava plenos poderes ao Imperador da França, do que a própria Igreja. Pensava em discutir essa lei, mas foi ignorado. E afim de não comprometera cerimônia, a contra gosto, aceitou de participar.

18 – Jean-Baptiste de Belloy – Arcebispo e Cardeal de Paris. Teve a honra de segurar a cruz durante a cerimonia, ponto principal traçado por David para divisão geométrica do quadro. Como curiosidade foi inventor da cafeteira, que antes era somente feito por infusão.

19 – Giovanni Battista Caprara: Cardeal enviado pelo Papa Pio VII, para negociar o protocolo da cerimônia diretamente com Napoleão. Na realidade no dia, não esteve presente, por estar doente, mas foi colocado no quadro, a pedido de Napoleão pelos seus bons serviços ao sucesso do coroamento.

20 – Raphaël de Monachis: Monge egípcio em túnica vermelha interprete pessoal de Napoleão durante a campanha no Egito. Professor de língua árabe de Jean-François Champollion (o francês que decifrou os hieróglifos egípcios), e professor de árabe na “Ècole des Langues Orientales”, em Paris.

20 – Jesus Cristo: Segundo outras interpretações, aqui David retratou Jesus observando a coroação como um sinal de uma aprovação divina.

Marechais da França:

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21 – Jean-de-Dieu Soult (1769 – 1851): Marechal do Império, que Napoleão depositava muita confiança por sua bravura e estratégias de combates. Sua esposa é dama de honra da mãe de Napoleão

22 – Jean-Baptiste Bessières (1768 – 1813): Marechal do Império, Coronel-General da Guarda Imperial. Brilhante oficial da cavalaria salvou a vida de Napoleão na campanha na Rússia. Participou intensamente da organização da cerimônia. Morreu em combate em 1813.

23 – Bon-Adrien Jeannot de Moncey (1754 – 1852): Marechal do Império recebeu de Napoleão a medalha de “A Grande Águia da Legião de Honra” e muitas outras condecorações. No dia da coroação teve a honra de segurar o cesto que receberia o manto de Josefina.

24 – Jean-Mathieu-Philibert Sérurier (1742 – 1819): Marechal do Império. Participou de varias batalhas e recebeu varias condecorações. Seu nome é um dos “boulevards” de Paris, conhecido como: Boulevard  Sérurier. Tem seu nome  gravado no Arco do Triunfo e a honra de segurar o anel de Josefina.

25 – Joachim Murat (1767-1815): Marechal do Império, casado com Carolina Bonaparte, irmã de Napoleão. Foi proclamado rei de Nápoles entre 1808 – 1815. Ele está segurando a almofada que apoiava a coroa de carvalho e loros de Napoleão.

Tribuna de Jacques-Louis David.

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Jacques Louis David (1748 -1825): Pintor da revolução, após a guilhotina de Luís XVI, de seu amigo Robespierre, e de ser preso, se aliou ao regime napoleônico em 1799, se tornando o 1° pintor Oficial de Napoleão em 18 de dezembro de  1804. Sobre a “Restauração” foi obrigado a partir para o exílio, (Bruxelas) onde morreu aos 77 anos.

Jacques Louis-David, um dos mais admirados e invejados pintores daquele momento, por seu estilo de compor, e por suas escolhas estéticas em suas obra. Teve uma escola que se formaram grandes pintores como: Ingres, Girodet, Gros, Gerard… Atualmente muitas de suas obras estão espalhadas por vários museus da Europa e Estados Unidos. Js.

Na tribuna superior localizada acima da tribuna da mãe de Napoleão, David se auto representou segurando um lápis, e um caderno desenhando croquis da cerimônia. Esta cercado por amigos, membros da sua família, esposa Marguerite-Charlotte Pecoul, suas duas filhas gêmeas, Pauline e Laure, seu aluno e assistente, Georges Rouget,  seu mestre e professor, Joseph-Marie Vien e muitos outros.

Coroação de Napoleão ou de Josefina?

Visto a perspectiva da obra é quase certo que David ficou posicionado em outro ângulo que a tribuna, talvez à esquerda, próximo aos irmãos de Napoleão, José e Luís Bonaparte.

Seu autorretrato na tribuna foi uma forma de assinar a obra, e para confirmar para posterioridade que esteve presente como convidado e pintor de honra de Napoleão, (nota-se que está vestido como a vestimenta da legião de honra, e não como pintor).

Conclusão

Esta obra de David, além de ser uma propaganda política deste novo regime, chamado, Império, que tem como objetivo legitimar a nova função de um governo autoritário, monocrático aprovado pelo povo, e por Deus, nós mostra também o surgimento de uma nova dinastia familiar, “Bonapartes”, em referência, aos Merovíngios, Carolíngios, Capetianos.

Um mundo unificado, controlado por Napoleão, e conciliado com a igreja Católica.

Ufa ! e Amém !

“A Coroação de Napoleão (ou Josefina)”, de Jacques Louis David, se encontra no Museu do Louvre, ala Denon, 1° andar, Sala 75.

1 comentário


  1. MARAVILHOSO.
    Estou encantada pela riqueza de detalhes.
    Lindo demais.

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