O Homem Vermelho do Palácio das Tulherias

O Homem Vermelho do Palácio das Tulherias

Tempo de leitura: 9 minutos

O Homem Vermelho do Palácio das Tulherias durante alguns séculos foi marcado por uma misteriosa lenda que assombrou os espíritos e comportamentos de seus ilustres e soberanos moradores.

Reis, rainhas, e imperadores fizeram de tudo para não encontrar esse famoso fantasma ensanguentado que anunciava com morte súbita ou trágica para quem o avistasse.

Palácio das Tulherias.

O Homem Vermelho do Palácio das Tulherias
Palácio das Tulherias, arquiteto Philibert de l’Orme (1514-1570).

Teve início em 1564, depois da morte trágica e acidental do rei Henrique II (1519-1559), quando Catarina de Médici (1519-1589), viúva e mãe-regente do novo rei da França, Carlos IX (1550-1574) ordenou ao seu arquiteto Philibert de l’Orme (1514-1570), a construção de um novo palácio.

Foi escolhido um vasta área próximo ao Palácio Real do Louvre ocupado antes por pequenas lojas de comerciantes como: açougueiros, ferreiros, marceneiros, prostíbulos (os famosos bordéis, a borda do sena)… E principalmente era onde se encontrava pequenas fábricas de telhas que cobriam as habitações de Paris, (telhas = tuiles, em francês)

Local que passou ser chamado Palácio da Tulherias, (em francês; Palais des Tuileries).

Muitos comerciantes ameaçados foram obrigados a abandonarem seus comércios e suas casas deixando a área livre e desimpedida para construção desse projeto particular encomendado pela rainha Catarina de Médici.

Catarina de Médici,1553/1555, de François Clouet, museu Vitoria e Alberto (Victoria and Albert Museum), Londres, Inglaterra.
Catarina de Médici (1553-1555), por François Clouet.

Lembrando que Catarina de Médici era adepta a ritos secretos, magia negra,  conhecida por estar sempre acompanhada de uma corte de magos, videntes, astrólogos, e apotecários fabricantes de venenos… Uma mulher de muitas ambições, perigosa e que fazia medo a quem se opunha aos seus projetos ou atrapalhasse sua sede de poder e conquistas junto aos seus filhos.

A rebelião do açougueiro.

Jean l’ecorcheur, (João o estripador) era um açougueiro bem conhecido da corte, pois era o fornecedor habitual de tripas e outros órgãos de animas fundamentais para realização dos trabalhos de magia encomendados pela rainha-mãe Catarina de Médici.

Contrariado pela injustiça de não receber uma indenização para deixar o seu açougue conseguiu mobilizar uma parte dos comerciantes para se oporem as ordens da rainha, considerada agora traidora do trabalhador e do povo francês.

Jean l’ecorcheur sem medo da repercussão por ser o líder dessa rebelião popular continuou reclamando uma indenização justa para todos, e guardando para si sua única moeda de troca, os segredos íntimos e as práticas ocultas que Catarina praticava junto a sua corte de magos.

Queima de arquivos, morte de Jean Açougueiro.

Catarina vendo que Jean sabia demais, e como era de seu hábito resolveu logo eliminá-lo acabando de uma vez por todas com essa revolta e o líder em questão.

Ordenou a seu homem de confiança e carrasco profissional Neuville de fazer o trabalho sujo. O carrasco depois de dar várias punhaladas, ainda escutou Jean l’ecorcheur, todo ensanguentado proferir a seguinte ameaça:

O Homem Vermelho do Palácio das Tulherias
O Homem Vermelho do Palácio das Tulherias.

“Soyez maudits, toi et tes maîtres ! Je reviendrai !” .

Tradução livre:
“Maldito seja, você e teus mestres ! Eu voltarei !”.

O fantasma ensanguentado.

Neuville, logo após cumprir sua missão voltando para sua casa por ruas sombrias e desertas de repente sente a presença que alguém está lhe seguindo. Olhou para traz e tomou grande susto quando viu “Jean l’ecorcheur” todo ensanguentado olhando fixamente para ele. Pegou sua espada e partiu para o ataque, mais sua lâmina acertou somente o vento.

Desnorteado, Neuville resolveu voltar para a cabana onde havia realizado o crime para ter certeza que o havia matado. Mas para sua surpresa e desespero, o corpo de Jean havia desaparecido.

Neuville correu relatar o ocorrido para Catarina de Médici, a perseguição, o sumiço e principalmente a maldição rogada por Jean na hora da morte. Como Catarina falava para todos que era protegida por poderes sobrenaturais que a deixava indestrutível a qualquer maldição fez pouco caso dos relatos e da história do fantasma ensanguentado desaparecido. Deu alguns dias de descanso para Neuville se recuperar do choque emocional.

Mas as férias forçadas não deram certo, pois Neuville continuava com a nítida impressão que estava sempre sendo perseguido por um Homem Vermelho, e por todos locais em que se encontrava. Paranoico e enlouquecido preferiu o suicídio.

Profecia de Ruggiere.

Algum tempo mais tarde, Cosme Ruggiere ( ? – 1615), astrólogo pessoal de Catarina veio encontrá-la para contar um terrível sonho onde um fantasma todo ensanguentado proferia a morte da rainha.

Deu ainda detalhes que ela morreria ao lado de Saint-Germain. Depois disse ainda que os futuros moradores soberanos, reis, rainhas, e imperadores do Palácio morreriam tragicamente, e que ele próprio, o Homem Vermelho (l’Homme Rouge) desapareceria para sempre quando o palácio pegasse fogo.

Catarina de Médici aterrorizada com o anúncio, nunca mais entrou na Igreja “Saint-Germain-de-Auxerrois” que que se encontrava em frente ao Palácio do Louvre e próxima ao Palácio das Tulherias recém-construído.

E também nunca mais pisou no Castelo de Saint-Germain.

Saint-Germain e Catarina de Médici.

Em 1589, quando Catarina de Médici se encontrava na sala principal do Castelo de Blois, (Vale do Loire), após ter visto no salão principal o vulto de um Homem Vermelho passou muito mal chegando a ficar atordoada e perdida.

A tomar consciência do que viu saiu gritando desesperada para que alguém viesse socorrê-la.

Mas foi em vão, pois não havia nenhum guarda presente por ali, a não ser um padre de nome Laurent de Saint-Germain.

Castelo de Blois - Quarto da rainha
Quarto da Catarina de Médici, Castelo de Blois (Vale do Loire).

A leitado e medicada com calmantes, quando soube o nome do padre começou a chorar já pedindo a extrema-unção.

E a profecia se realizou-se quando Catarina de Médici morreu junto a Saint-Germain.

Maria Antonieta viu e ficou mais branca do que já era.

Maria Antonieta, em 1783,par Elisabeth Vigée Le Brun.
Maria-Antonieta dito “à la Rose”, (1783), de Elisabeth Vigée-Lebrun.

Em outubro de 1789, após a queda da Bastilha, o rei Luís XVI (1774-1792) e família foram obrigados abandonarem o Palácio de Versalhes para viverem próximo ao povo, no Palácio das Tulherias. Madame Campan, leitora oficial da Maria Antonieta deixou-a sozinha alguns minutos no quarto e ao retornar a rainha estava toda branca empalecida e muito assustada.

Maria Antonieta ainda tremulando de medo contou a sua amiga ter visto um fantasma todo ensanguentado olhando fixo para ela. Esse acontecimento foi alguns dias antes da frustrada fuga de Paris em 21 de junho de 1791, acabando na guilhotina em 16 de outubro 1793. Mais uma profecia realizada.

Napoleão I° (1769-1821) também viu.

Em 1815, o Imperador Napoleão Bonaparte I° (1804-1814/1815) sentado no seu trono favorito, no “Cabinet de Travail(Sala de Trabalho) do Palácio das Tulherias observou uma neblina se espalhar por toda a sala. No meio dela saiu o famoso Homem Vermelho anunciando a derrota de sua armada na batalha que estava prestes a começar em Waterloo.

E assim foi dito, o Imperador perdeu a guerra, em 1815, e morreu no exílio em 1821, na ilha de Santa-Helena. E mais uma vez, a profecia se concretizou.

O rei Carlos X (1824-1830) também viu.

Luís XVIII (1778), por Joseph Duplessis.
Conde de Provence, futuro rei Luís XVIII.

Com a volta da monarquia parlamentar, o rei Luís XVIII (1814/1815-1824), irmão do guilhotinado Luís XVI(1874-1793) resolveu também morar no Palácio das Tulherias.

Em 1824, seu  irmão mais jovem, o conde de Artois, futuro rei Carlos X (1824-1830) viu uma coroa ensanguentada nas mãos do Homem Vermelho. No dia seguinte, Luís XVIII com fortes dores de cabeça adoeceu e morreu sem deixar um príncipe herdeiro.

Profecia ou coincidência ?

Palácio em chamas e o fim da profecia.

Palácio das Tulherias pegando fogo
Palácio da Tulherias em chamas, em 23 de maio de 1871.

O Homem Vermelho apareceu pela última vez em 23 de maio de 1871, quando parte da população parisiense, durante a Comuna de Paris, colocaram fogo no Palácio das Tulherias revoltados contra a política do imperador Napoleão III (1852-1870) que havia se rendido as condições impostas pela Prússia e abdicado ao poder.

Várias testemunhas garantem terem visto o Homem Vermelho, no meio das chamas na janela, da famosa Sala dos Marechais (“Salle des Marechaux”).

E como ele mesmo havia prevenido ao Cosme Ruggiere, astrólogo de Catarina de Médici, desapareceu definitivamente no meio ao fogo e as chamas.

E nunca mais foi visto.

Lenda Popular.

Diziam que o Homem Vermelho foi uma lenda contada pelo povo durante séculos, para que monarcas, soberanos e pontífices da França, que exerciam com seus poderes divinos e autoritários sobre a população, para que não se afastassem das leis fundamentais determinadas por Deus, e que através de suas ações e decisões procurassem sempre a paz e a união dos povos e a preservação da religião cristã.

Agora caso utilizassem esses poderes em causa própria indo contra o desejo segurança e proteção da população, todos seriam punidos gravemente pelo DEUS SUPREMO.

Museu do Louvre sem o Palácio das Tulherias que fazia o fechamento da área.

Por ordem da Câmera dos Deputados, (chamada hoje, Assembleia Nacional), o Palácio das Tulherias foi totalmente demolida em 30 de setembro de 1883.

Na foto acima podemos ver somente o que restou do incêndio, em cada ponta do atual museu do Louvre, o pavilhão “Flore” (lado do rio Sena) e o pavilhão “Marsans” (lado da rua de Rivoli).

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9 Comentários


  1. Tom Pavesi, amigo querido, eu já conhecia a história, mas não com tantos detalhes importantes.
    Lenda ou não, é um registro histórico de Paris.

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  2. Essas estórias pitorescas ambientadas em Paris tornam “a Cidade Luz” ainda mais atraente!!
    Obrigado Tom por nos contar os Segredos de Paris!!

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    1. Parabéns Tom seu Blog é muito interessante e cheio de detalhes. Adorei!
      Continue a nos deliciar contando os segredos dessa linda cidade. Um abraço.
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  3. Tom querido

    Acabei de ler seu lindo texto…..Sendo lenda ou nao e muito perturbador …ainda bem que o fantasma sumiu nas cinzas do castelo incendiado .
    Como eu gostaria de fazer esse tour com voces ,mas estou desde o ano passado com viagem marcada para julho.
    Com certeza nao faltara oportunidade porque atras desse lindo passeio virão outros …
    Obrigada por nos presentear com essas historias tão bem contadas
    Abs meu e do Silvio

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    1. Neusa e Silvio,
      Eu sei que vocês são grandes apaixonados por Paris, e espero que um dia possamos nos encontrar novamente, e possa contar pessoalmente alguns segredos que a cidade esconde, e que vocês nem imaginam…
      Abraços, e boa viagem em julho.

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  4. Seja lenda ou não, eu adorei a história, cheia de detalhes interessantes! Ótimo .

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  5. Espetacular! e arrepiante….. Amo “segredos de Paris”, vocês estão sempre de parabéns!!!!

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